sábado, 24 de junho de 2017

OS GEOGLIFOS DO ACRE


Altair Sales Barbosa

No atual estágio da Arqueologia Pré-histórica Brasileira, são conhecidos vários tipos de sítios arqueológicos, que de acordo com as características recebem classificações diferenciadas. Um sítio arqueológico refere-se a um local onde há vestígios de atividades humanas e, se classificam em Pré-históricos, Clássicos e Históricos.

De acordo com as características os sítios arqueológicos pré-históricos brasileiros, recebem denominações diferenciadas. Os principais são:

Sítios Cerâmicos, geralmente localizados em áreas abertas e quase sempre associados a grupos horticultores, que faziam grande uso de vasilhames cerâmicos na labuta cotidiana. Quando abandonavam o local deixavam a maior parte dos vasilhames na antiga moradia, pois além de frágeis, eram de transporte relativamente difícil. Com o intemperismo do tempo essas peças se fragmentavam dando origem a grandes concentrações de cacos de cerâmica;


Sítios Líticos, locais de antiga moradia onde não aparecem vestígios da utilização da cerâmica. Geralmente associa-se esses sítios a grupos com economia de caça e coleta; 







Sítios Líticos Oficinas, locais de exploração de matéria prima mineral, para confecção pelos indígenas de suas ferramentas, quer sejam lascadas ou polidas;



Sítios em Abrigo Sob Rocha, são locais com vestígios arqueológicos, localizados em grutas e abrigos e tanto podem conter material lítico ou cerâmico, como também outros grupos de vestígios tais como, restos de alimentos, sepultamentos, e sinalações rupestres.

Os Sítios com Sinalações Rupestres
, que estão sempre associados a outros materiais, são colocados numa categoria a parte porque às vezes são encontrados isoladamente. São caracterizados por pinturas com motivos variados e também com cores variadas. Os sítios com pinturas na sua maioria se localizam em abrigos. Dentro da grande categoria de sítios rupestres, podem ser incluídos os sítios com petroglifos que são inscrições rupestres, encontradas tanto em abrigos, como em blocos de rochas isolados, ou em lajedos de rocha dura, rente ao solo;


Sítios Sambaquis, são grandes amontoados de moluscos consumidos por populações pré-históricas, possuindo várias funções. Embora os sítios sambaquis sejam mais frequentes no litoral, também há vários registros de sua existência no interior do Brasil.





Para todas essas principais categorias de sítios arqueológicos a Arqueologia Brasileira tem hoje entendimento bem seguro para sua existência. Entretanto em 1977 o arqueólogo Ondemar Dias Junior, descobre no Acre, no vale do rio Purus algumas estruturas, até então desconhecidas na Arqueologia do Brasil, as quais atribui o nome de geoglifos e em 1988 Ondemar Dias e Eliana Carvalho, publicam o primeiro trabalho sobre o tema, atribuindo-lhes também a denominação valetas de terra.

Os geoglifos são grandes sinalizações feitas diretamente ao solo, principalmente em solo argiloso e sempre representam figuras geométricas, sendo em sua maioria, circulares ou quadradas. Consiste basicamente pela escavação de dois fossos ou valetas com profundidade que podem atingir até três metros.

Uma valeta é externa, protegida por uma espécie de mureta cuja terra é retirada da sua própria construção. A outra valeta ou fosso é interno e dista cerca de cinco metros da valeta externa. Ambas formam figuras geométricas, raramente vistas do nível do solo. No entorno das duas valetas, que formam figuras circulares, quadradas ou outras formas, são plantadas bem juntinhas fileiras de ananás, planta bromeliácea espinhenta, parente do abacaxi, que funciona como proteção, tanto para homens, como animais. O grande volume de terras retirado das valetas e acumulado simetricamente nas suas bordas, para quem observa do alto, forma-se um desenho geométrico em alto e baixo relevo.

Cada círculo ou quadrado geralmente possui uma área maior que 150 metros. A construção dessas estruturas podem estar associadas aos indígenas de línguas Jê-Pano, Karib, Kaxinawa, Aruak, que também chegaram a habitar a Bolívia e outras áreas da Amazônia brasileira.

Atualmente as pesquisas sobre os geoglifos tem motivado vários pesquisadores, cujos trabalhos tem-se resultados em dissertações e teses de doutorado.

As pesquisa também aumentaram em muito o registro dessas manifestações arqueológicas. Atualmente só para o Acre são conhecidas mais de 500 dessas configurações, é bom ressaltar que, não se restringem somente ao Acre, mas ocorrem também noutras áreas das terras altas da Amazônia e até fora do território brasileiro.

Descobriu-se também que há geoglifos que se unem por caminhos retos, as vezes formando figuras singulares. Entretanto, esses geoglifos não devem ser confundidos com aquelas figuras imensas que existem no norte do Chile e em Nasca no Peru, essas figuras são inscrições feitas no alto ou nas escarpas da Cordilheira e parecem indicar caminhos para orientação.

Também não podem ser considerados centro de adoração de influência cristã, porque o cristianismo só chega à região há cerca de 200 anos.



As primeiras escavações conduzidas pelo professor Ondemar na região de Xapuri no Acre, acusam idades situadas entre 2.000 a 2.500 anos A. P.  

Outro fator importante a salientar é que não se pode associar os geoglifos como centros cerimoniais de Impérios Civilizatórios, porque a civilização implica uma série de categorias sociais mais complexas. Na civilização existe poder centralizado com divisões de classes sociais, noção de propriedade privada, que o índio brasileiro felizmente não tem. O brasileiro tende a diminuir a importância da sociedade tribal mas a sociedade tribal é o tipo de sociedade mais equilibrada para o homem viver. Porque não há diferenças sociais. Felizmente não temos impérios pré-históricos no Brasil. É possível que os geoglifos tenham sido construídos com base numa orientação religiosa, mas não em função de uma aristocracia.

É bom ressaltar que com os avanços das pesquisa, principalmente pelo Museu Emílio Goelde, do Pará e pelas universidades de Rondônia e Acre. Além das formas comuns circulares e quadradas, descobriram-se também retângulos, hexágonos e octógonos com até 350 metros de diâmetro. E, em função do acumulo de terras férteis entre as valetas os arqueólogos vislumbram que os geoglifos foram, construídos para protegerem áreas de cultígenos associados a existência de ocas ou aldeias.
Esses monumentos arqueológicos, atualmente são considerados Patrimônios Culturais do Acre. 


                                                       Professor Dr. Ondemar Dias 



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