Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Enterrem meu Coração atrás do Morro do Estreito

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“Oração pela vida de Correntina”

Lá nos confins dos sertões, entre Goiás e Bahia, onde o maciço calcáreo da Serra Geral repousa docemente seu dorso sob um manto de areia fina, depositada pelo sopro milenar de ventos mutantes, existia, há muito tempo, um deserto conhecido pelo nome de Urucuia. Nessa época, quase não existia vida por lá e tempestades de areia constantemente surgiam ao longo do horizonte, como um balé macabro unindo o céu e a terra.

Muito tempo se passou e as condições do clima, com sua habitual preguiça, aos poucos se modificaram. Nuvens carregadas, passando por lá, salpicavam de pétalas o areião e a serra que, sabiamente, retinham as sobras pelos poros subterrâneos, formando um rico lençol aqüífero. Não se viam mais as tempestades de areia. A vida brotava na forma de folhas e troncos aqui e ali, formando campinas e gerais. Na fronte da serra, surgiam olhos, que comovidos de tanta alegria, marejavam lágrimas deslizantes sobre o solo frouxo de areias, formando sulcos que iam verediando na direção do sol nascente.

Os olhos viraram lagoas, as lágrimas eram rios. Por onde passavam, enriqueciam a vida. Brotavam buritis, buritiranas, pororocas, gameleiras, ingás, ipês-amarelos, mussambés até cipós e jenipapo. Ao largo, como um abraço carinhoso, surgiram jatobás, paus d’óleo, paus ferro, cagaitas, pequis, mangabas, puçás, vinháticos, cajus, cascudos, araçás, bacoparis, grão-de-galo e tantos outros que seriam necessários muitos janeiros para contar suas histórias.

Buriti atraiu a arara que, com seu grito ressoante, avisou a bicharada a descoberta daquele paraíso. Vieram emas, capivaras, seriemas, veados, periquitos, tatus, sabiás, cervos, canarinhos, camaleões, pássaros-pretos, suçuaranas, onças-pintadas, mutuns, calangos, lagartixas, tamanduás, antas e até preguiças eram vistos fazendo malabarismos nos galhos da embaúba.
As frutas que caiam n’água atraiam toda sorte de peixes que, num balé sincronizado, passeavam subindo e descendo os rios.

O sol ainda tingia de dourado o orvalho nas folhas da buritirana, quando, por detrás da vasta vereda, um bando de gente inaugurava uma nova era. Eram os índios, os primeiros seres humanos a chegarem na região. Isso foi há muito tempo e por quase quinhentas e cinqüenta gerações. Estas populações, se enamorando da paisagem, elegeram como prioridade a harmonia, e assim viveram durante séculos.

Um belo dia, muito tempo depois, outros seres humanos, procurando pepitas douradas entre os cascalhos dos rios, redescobriram aquele paraíso e, ao longo desses rios de águas cristalinas, construíram suas vidas, implantaram suas cidades, seus roçados, suas oficinas de farinha, seus canaviais e suas moendas.

Quando a seca afetava as pastagens da Caatinga, os vaqueiros, entoando cantigas de aboio, transportavam o gado para os gerais e assim construíram uma vida de migrações sazonais.
Como um feixe de luz, os rios entraram no cotidiano das populações, dando-lhes o sustento, influenciando nos seus hábitos de maneira tão forte, que ainda hoje, quando os ventos sopram de leste para oeste, ainda soa na lembrança os versos daquela cantiga de roda dizendo que o navio da cachoeira não navega mais pro mar...

Os rios passaram a ser um pouco da vida dessa gente, um pouco da pessoa amada, o pai, a mãe e os filhos. Saciando a sede, higienizando e acariciando os corpos bronzeados pelo sol do meio-dia.

Quando o perigo iminente ameaçava descristalizar suas águas, as carrancas do Velho Guarany se posicionavam como guardiões do bem, expulsando para longe as ameaças vadias.

Um belo dia, numa época bem recente, homens estranhos com chicotes e boleadeiras, aterrorizando as carrancas, subiram os rios em direção às suas cabeceiras e ocuparam os chapadões.

Era o caos! As campinas minguaram e bancos genéticos valiosos foram substituídos por grãos estranhos. Máquinas pesadas, semelhantes a dragões acorrentados, atiraram ao chão as plantas raquíticas dos gerais.

Árvores exóticas surgiram em alguns locais, como um ralo de esgoto, exaurindo os recursos públicos. Roçaram as veredas, as bombas sugadoras do pivô central começaram a devolver ao rio o veneno usado para imunizar as novas lavouras.

Os buritis desfolhados começaram a presenciar a desestruturação da vida dos brejeiros.

E assim, a vida foi canalizada pelos meandros da má qualidade.

Os solos encharcados das veredas aos poucos se transformaram em pedra dura e a água dos rios, diminuindo, expôs nos barrancos os seixos arredondados, que outrora repousavam no leito farto desses rios.

Por isso, quando os ventos da desolação soprarem rajadas de pobreza e o povo, desorientado, clamar por salvação, enterrem meu coração atrás do morro do estreito. Não quero ver a pedra do lajedo agonizando de sede, clamando por uma gota de água.

Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Professor da UCG tem reconhecimento

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

O Rio São Francisco vai bater no meio do mar?

Elementos para entender a transposição do Velho Chico
e uma moratória para ele e os Cerrados


Os afluentes da margem esquerda
Os afluentes da margem esquerda, na realidade, são os principais responsáveis pela perenização do rio São Francisco, pela sua oxigenação e, em última instância, pelo seu nascedouro e existência. A água armazenada neste grande espaço geográfico abrange desde a Serra da Canastra, ao sul, até a Chapada das Mangabeiras, ao norte, e se limita a oeste pelo Espigão Mestre, que separa Goiás e Tocantins de Minas e Bahia. Nos chapadões formados a leste do Espigão Mestre existem grandes depósitos de arenito que constituem a Formação Geológica denominada Urucuia, de idade Cretácea, formada entre 140 a 65 milhões de anos. A Formação Urucuia repousa sobre a Formação Bambuí, Calcário de idade Pré-Cambriana e Paleozóico Inicial, com idade média de 1 bilhão de anos. Essas duas formações geológicas armazenam água que formam dois grande aqüíferos, respectivamente denominados Bambuí e Urucuia, responsáveis pelas águas que fazem jorrar a nascente do São Francisco e de todos os seus afluentes da margem esquerda, que em função de secções geomorfológicas estão agrupadas em dois grandes conjuntos. O primeiro se situa desde a Serra da Canastra, em Minas Gerais, até a Serra da Capivara, na fronteira entre Minas Gerais e Bahia. O segundo se situa desde esta Serra até os contrafortes da Chapada das Mangabeiras, na fronteira entre Bahia, Tocantins, Piauí e Maranhão.

Entre os rios do primeiro conjunto se destacam o rio Abaeté, o Paracatu, o rio Urucuia, e o rio Pardo. A partir da Serra da Capivara, um aglomerado de capilares aquosos formam importantes rios como Carinhanha, que deságua diretamente no São Francisco, e uma série de outros importantes cursos d’água, como rio Pratudão, rio Pratudinho, rio Arrojado, rio Correntina, rio do Meio, rio Guará, rio Formoso, rio Santo Antônio, etc, que nas proximidades de Santa Maria da Vitória todos se juntam dando origem ao rio Corrente, que deságua no São Francisco, nas proximidades de Bom Jesus da Lapa. Mais ao norte, outro grande conjunto de inúmeros capilares aquosos, que vem desde o Jalapão, se juntam num imenso volume de águas, dando origem ao rio Grande, que deságua no São Francisco na cidade de Barreiras.

Todos êsses rios são perenes durante toda época do ano. Até cerca de 30 anos atrás, o volume desses rios era no mínimo cinco vezes maior que o volume atual. A partir da década de 70 as áreas dos chapadões onde se situam as nascentes e os cursos médios desses rios vêm sofrendo uma grande transformação, com a retirada da cobertura vegetal natural para a plantação de grãos e outras plantas exóticas. Este fato tem impedido a realimentação dos aqüíferos, com o desaparecimento de numerosos afluentes menores e a diminuição drástica do volume dos cursos maiores. Em outras palavras, o sistema de capilaridade aquosa está sendo drasticamente afetado.



Os afluentes da margem direita
A maior parte dos afluentes da margem direita do rio São Francisco é formada por rios temporários, ou sazonários, que costumam desaparecer na estação seca. Este fenômeno é mais frequente no norte de Minas e no Estado da Bahia. O rio mais importante pela sua margem esquerda não é temporário e se localiza próximo a sua nascente. Trata-se do rio das Velhas, que carrega para o São Francisco todo o esgoto de Belo Horizonte. Por isso é que afirmamos que os afluentes da margem esquerda são responsáveis não só pela perenização do São Francisco, mas também pela sua oxigenação. Para entender o que poderá acontecer ao rio São Francisco com a transposição que, de certo modo, altera seu frágil estado de equilíbrio e de seus afluentes, é importante entender a importância do cerrado para manutenção desse equilíbrio, bem como seus principais processos ocupacionais.


O Cerrado e os processo de ocupação humana
O Brasil possui sete grandes domínios morfoclimáticos e fitogeográticos, sendo que a maior parte, em função de sua história evolutiva, mantém, de certa forma, uma interdependência ecológica, onde variados fatores exercem funções de amenizar, difundir, complementar e, às vezes, suprir o todo. Esses domínios são:

1- Domínio Equatorial Amazônico, situado no Norte e Noroeste do País, abrangendo os baixos platôs tabuliformes, as grandes planícies, subsetores momelonizados florestados e montanhas florestadas das encostas orientais andinas, até 600 metros de altitude। Constitui o grande domínio do Trópico Úmido, coberto pela floresta úmida amazônica

2- Domínio Roraima-Guianense, situado como um enclave dentro do Domínio Equatorial Amazônico, na fronteira entre Roraima, Venezuela e Guianas। Constitui o domínio úmido tropical da Gran Sabana, coberto por vegetação campestre, denominada de campos do Rio Branco e Tumucumaque;

3- Domínio das Caatingas, situado em áreas de depressões interplanáticas do Nordeste brasileiro, com clima de caráter semi-árido, drenagens intermitentes e sazonarias। Constitui o Domínio do Trópico Semi-Árido, coberto pela vegetação da caatinga, conhecido, regionalmente, por sertões secos;

4- Domínio Tropical Atlântico
, situado na fachada atlântica tropical do Brasil, desde as costas do Rio Grande do Norte, até o limite do Trópico de Capricórnio। No seu limite sul prolonga-se pelo interior, em áreas do oeste paulista e norte do Estado do Paraná. Constitui o Domínio Tropical da Mata Atlântica, de caráter úmido e superúmido;

5- Domínio dos Planaltos Sul-Brasileiros (com araucária), situado em áreas planálticas subtropicais atlânticas, cobertas por um velho núcleo de araucárias;

6- Domínio das Pradarias Mistas Subtropicais, situado na metade sul do Rio Grande do Sul e grande parte do Uruguai। Constitui o Domínio das Coxilhas com campos e florestas de galerias subtropicais;

7- E por fim, tem-se o Domínio do Cerrado, situado nos planaltos centrais do Brasil, onde imperaram climas tropicais de caráter subúmido com duas estações, uma seca, outra chuvosa। Constitui o grande Domínio do Trópico Subúmido, coberto por uma paisagem que constitui um mosaico de tipos fisionômicos, que variam desde campos até áreas florestadas.
Esses sete domínios formam, na maior parte dos casos intrincados, sistemas ecológicos independentes. O Domínio do Cerrado dos chapadões centrais do Brasil, pela posição geográfica, pelo caráter florístico, faunístico e geomorfológico, constitui o ponto de equilíbrio desses variados domínios, uma vez que se conecta, através de corredores hidrográficos, com esses biomas e com outros continentais. Os chapadões centrais do Brasil, cobertos pelo Domínio do Cerrado, constituem a cumeeira do Brasil e também da América do Sul, pois distribuem significativa quantidade de água que alimenta as principais bacias hidrográficas do Continente.

O Domínio do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Inclui a parte sul de Mato Grosso, o oeste da Bahia, oeste e centro de Minas Gerais, sul do Maranhão, grande parte do Piauí, prolonga-se na forma de corredor até Rondônia e, de forma disjunta, aparece em certas áreas do nordeste brasileiro e parte de São Paulo. Ecologicamente, se relaciona às Savanas, e há quem afirme que o cerrado é configuração regionalizada desta. No Brasil, este tipo de paisagem recebe denominações diferentes, de acordo com a região: Gerais, em Minas e Bahia, Tabuleiro, na Bahia e outras áreas do Nordeste e ainda, Campina, Costaneira e Carrasco, dependendo da região. Nenhuma dessas designações populares reflete a sua totalidade ecológica, referindo-se apenas a uma modalidade fisionômica, às vezes associada a uma ou outra configuração geomorfológica. No mesmo sentido, o paradigma puramente botânico não tem sido suficiente para demonstrar a totalidade e a importância ecológica do Cerrado, uma vez que destaca ou enfatiza, apenas, parcelas fragmentadas de sua composição. Quando isto acontece, o caráter da biodiversidade, elemento marcante da ecologia do cerrado, não recebe a importância merecida, nem sequer pode ser compreendida nos seus aspectos fundamentais. Modernamente, a utilização do paradigma biogeográfico tem se demonstrado um referencial de fundamental importância para se entender o Domínio do Cerrado, em sua globalidade, definindo os diversos matizes, tanto abertos e umbrófilos, como subsistemas interatuantes e integrantes decisivos de um sistema maior. O conceito biogeográfico tem ressaltado a importância que o cerrado exerce para o equilíbrio dos demais biomas do Continente, além de demonstrar que a principal característica da sua biocenose é a interdependência dos componentes aos diversos ecossistemas.

O Cerrado exerceu papel fundamental na vida das populações pré-históricas que iniciaram o povoamento das áreas interioranas do continente sul-americano. Na região do Cerrado essas populações desenvolveram importantes processos culturais, que moldaram estilos de sociedades bem definidas, em que a economia de caça e coleta imprime modelos de organização espacial e social com características peculiares. Os processos culturais indígenas que se seguiram a estes modelos trouxeram pouca modificação e, embora ocorresse o advento da agricultura incipiente, que era exercida nas manchas de solo de boa fertilidade natural, existentes no Domínio do Cerrado, a caça e a coleta, principalmente a vegetal, ainda eram fatores decisivos na economia dessas sociedades.


A partir do século XVIII o panorama regional começou a sofrer sensíveis modificações, em virtude do incremento da colonização que se embrenha pelo interior do País, à busca de ouro, pedras preciosas e índios escravos. Nesse contexto, e a partir dessa data, surgiram os primeiros aglomerados urbanos e a exploração mais intensa dos recursos minerais, que começava a se incrementar, já provocou os primeiros sinais de degradação. Findo o ciclo da mineração, a região do cerrado permaneceu economicamente dedicada à criação extensiva de gado e à agricultura de subsistência. Alguns desses modelos econômicos, chamados de agricultura familiar, ainda existem em espaços localizados até os dias atuais, e outros modelos, ainda mais simples, baseados no extrativismo, são também adotados por populações caboclas, habitantes atuais de espaços definidos.

O isolamento que a região manteve em relação às áreas mais populosas e economicamente dinâmicas do Brasil, até meados da década de 50, fez com que este quadro permanecesse basicamente inalterado, fato que a implantação de Brasília alterou consideravelmente, desestruturando os sistemas sociais implantados, e causando entropias de ordem biológica। O potencial agrícola que o cerrado têm demonstrado, associado ao fato de ser uma das últimas reservas da terra capaz de suportar, de modo imediato, a produção de grãos, cereais e a formação de pastagens, tem atraído recentemente grandes investimentos. A exploração agrícola do cerrado tem aumentado significativamente na última década.

O potencial do cerrado, estimado em 65% de sua área, ou cerca de 130 milhões de hectares, associado ao fato de ser uma alternativa para a produção de grãos e a atividade pecuária, atrai grandes investimentos e cria modificações significativas do ponto de vista de infra-estrutura de suporte como represas, estradas, indústrias, fato que em conjunto tem provocado o aumento dos aglomerados urbanos e o inchaço de algumas cidades। Esses fatos, tomados em conjunto, têm provocado situações ecologicamente nocivas, com perspectivas deveras preocupantes। A causa fundamental desta situação pode ser creditada ao modelo econômico que se instalou, voltado para o lucro imediato, sem nenhuma preocupação com as questões globais do meio ambiente e da ecologia do cerrado। Também pode-se associar a este determinante a falta de ações integradas de pesquisa técnico-científica para o conhecimento holístico das interações ambientais existentes, que tem causado a ausência de propostas concretas de zoneamento ecológico, com ênfase sócio-econômica, e planejamento global do uso dos recursos naturais da terra.

Se os fatos continuarem no ritmo em que estão, e na orientação que se segue, em breve situações irreversíveis vão acontecer em diversos pontos, contribuindo para a erosão do potencial humano, criando situações subumanas e extinguindo um patrimônio genético vegetal e animal, de fundamental importância, inclusive para a autocompreensão da humanidade. A pior consequência porém é a diminuição dos aquíferos.


Conseqüências do sistema de ocupação atual

Vários estudos destacam outras conseqüências deste sistema de ocupação desordenada, que inevitavelmente afetam o rio São Francisco na sua plenitude, diminuindo, contaminando a água e acabando paulatinamente com a fauna aquática.

1 - Empobrecimento genético
- "Os efeitos mais importantes acontecem quando se instalam grandes extensões de pastagens cultivadas monoespecíficas e culturais únicas, grandes consumidoras de insumos, como fertilizantes, herbicidas e pesticidas com intensa utilização de máquina pesada. Como conseqüência, empobrece a diversidade da fauna e flora, fazendo com que se percam espécies ímpares. O efeito imediato é o empobrecimento dos ecossistemas em espécies nativas e a possibilidade de aparecimento de pragas devastadoras, além da propagação de ervas daninhas. A destruição da vegetação natural, em áreas de alto endenismo, pode causar danos irreparáveis, que impossibilitariam a procura de novos materiais no reservatório genético, que são este tipo de ecossistemas. Por outro lado, já se constataram casos de propagação de ervas daninhas exóticas, provenientes de sementes das culturas e que encontram, no novo ambiente artificial de cultura, todas as condições de fácil propagação".

2 - Erosão dos Solos - A degradação dos recursos naturais é visível no reconhecimento de seus efeitos, como a erosão hídrica e eólica, a incidência de enchentes e secas, a poluição dos mananciais hídricos, o assoreamento de rios e represas etc.. No cerrado isto adquire importância se considerarmos as singularidades de clima, vegetação e solos aí existentes. O clima da região, de caráter subúmido, caracteriza-se pela incidência de uma estação seca de até 180 dias no período de inverno, e pela incidência de uma interrupção de chuvas no período de verão (verânico). A vegetação apresenta uma diversidade bastante grande, podendo-se encontrar florestas, cerrado, campos, veredas etc. Os solos apresentam uma heterogeneidade bastante grande, fruto de interações com a vegetação, o clima e a geomorfologia locais. Em sua maioria são constituídos de latossolos, que são solos profundos, de textura média a muito argilosa. Apesar de sua textura, apresentam um comportamento físico-hídrico similar com solos arenosos, com alta capacidade de infiltração, alta porosidade, baixa capacidade de retenção de água e de troca de cátions, média susceptibilidade à compactação e relativamente baixa susceptibilidade à erosão. Este comportamento é reflexo de uma estrutura formada por microagregados altamente estáveis que se comportam como areia, influenciando assim suas propriedades físicas, químicas e ecológicas. A responsável por esta estrutura singular é a capacidade cimentante dos óxidos de Ferro e Alumínio e da Matéria Orgânica. O uso indiscriminado destes solos, as elevadas doses de corretivos e fertilizantes químicos, o uso de sistemas não racionais de preparo, inclusive com a pulverização exagerada, podem gerar situações bastante nocivas para o meio ambiente físico e para as populações humanas. Outros solos que predominam na região são as Areias Quartzosas como a maior parte da margem esquerda do São Francisco e os Podzólicos. Os primeiros são solos extremamente frágeis, que devem ser considerados como áreas de preservação permanente, especialmente quando extremamente arenosos (menos de 5% de teor de argila). Os Podzólicos são solos de alta susceptibilidade à erosão, geralmente em relevo ondulado ou forte ondulado, que devem ser ocupados com atividades de pecuária ou reflorestamento especialmente com espécies nativas. O estudo, validação e difusão de sistemas adequados de manejo dos solos e da água para os solos dos cerrados são necessários, reservando sua exploração às áreas já ocupadas ou que possuam um planejamento para uso global.

3 - Contaminação química das águas e da biota
- "O uso indiscriminado de agrotóxicos já foi bastante denunciado em outras regiões do país, e alguns estados, como o Rio Grande do Sul, contam com legislação específica para seu controle. No cerrado, não se conhecem bem os efeitos, e os controles são bastante precários. Como o ambiente do cerrado está sendo violentamente alterado, podem proliferar doenças que antes não eram conhecidas, devido à perda dos controles biológicos de certos insetos e doenças. Frente a estas perspectivas, muitos produtores exageram na aplicação de agrotóxicos, provocando danos ainda maiores pela geração de variedades resistentes, e o aniquilamento conjunto de pragas e seus controladores. Outro fator pouco conhecido é aquele devido ao uso de altas concentrações de calcário e fertilizantes, para corrigir as deficiências químicas da maioria dos solos do cerrado. Provavelmente as condições químicas dos solos melhoram com o tempo, mas, a longo prazo, serão afetados os lençóis freáticos e em conseqüência as águas superficiais. Haverá eutrofização hídrica. Estas, por enquanto, são perguntas sem respostas. A importância deste fator é relevante se levarmos em conta que serão criados vários reservatórios na região para geração de energia elétrica. Haverá paisagens que serão mais afetadas e outras que não o serão. Este é um assunto a ser estudado seriamente, antes do fechamento dos reservatórios, dentro das pesquisas necessárias à determinação da viabilidade dos projetos".

4 - A irrigação -
"A irrigação no cerrado é um fenômeno cada vez mais intenso, devido às características favoráveis que a região apresenta, como por exemplo a insolação alta na época seca, o acesso facilitado à eletricidade nas regiões de ocupação mais antiga, os programas de incentivo e a garantia, por parte do produtor, de colheita certa e farta. Deve-se distinguir dois tipos de irrigação: A irrigação das terras altas, que é realizada utilizando-se alta tecnologia em termos de equipamentos. O manejo da água e do solo, no entanto, é realizado sem mínimo critério técnico, sendo que os gerentes destas áreas desconhecem conceitos simples como a lâmina de água, turno de irrigação etc. O manejo do solo, por sua vez, é executado com técnicas recomendadas para terras não irrigadas (sequeiro), desconhecendo as interações ambientais criadas pela irrigação no período de inverno seco. Nas várzeas, o efeito maior é o da destruição dos ecossistemas ribeirinhos e dos vales utilizados, como as veredas e as planícies aluviais. Em regiões como o oeste da Bahia, esse tipo de irrigação pode provocar danos às próprias terras altas, favorecendo a erosão, já que as veredas protegem os solos arenosos da região. Uma descida do nível de base com drenagem pode provocar danos imprevisíveis. O papel protetor dos buritizais e das florestas de galena é significante. Ao ser eliminado, provoca a desintegração da própria várzea".

5 - Exploração mineral dos cerrados - Outra atividade que vem causando sérios efeitos, com alterações nas paisagens, é a de exploração mineral. As cicatrizes e degradacão provocadas pelas minas a céu aberto exigem projeto imediato de recuperação da paisagem, utilizando espécies vegetais nativas. Da mesma forma, a degradação provocada pela retirada de areia, cascalho etc., para o preenchimento de galerias em minas subterrâneas, exige as mesmas providências. A garimpagem de ouro, na qual se utiliza, sem controle, grande quantidade de mercúrio, tem causado sérias contaminações ao ambiente como um todo. A técnica de purificação com cianeto nos grandes projetos de mineração necessita de cuidados e estudos especiais, para não pôr em risco grandes espaços geográficos.

6 - Formação de reservatórios - A formação de reservatórios tem sido outro elemento deturpador do meio ambiente, afetando este de diversas maneiras: a) modifica o ambiente lótico que passa a ser béntico, com mudanças drásticas da fauna aquática; b) inunda extensas áreas, destruindo ambientes e terras, às vezes de alto valor agrícola, ecológico etc.; c) serve de barreira ecológica para a migração de fauna; d) provoca ocupação descontrolada na sua bacia, favorecendo a erosão dos solos e afetando o próprio reservatório; e) a população moradora da área inundada é obrigada a se deslocar; e) favorece a proliferação de doenças transmitidas por vetores aquáticos.

7 - Retirada da cobertura vegetal natural e os aquíferos - O Cerrado é uma floresta de cabeça para baixo, 2/3 das plantas se encontram no solo. Esta parte forma um complexo sistema radicular, que retêm mais de 70% das águas das chuvas. Estas águas alimentam o lençol freático que, por sua vez, alimenta os aqüíferos, que dão origem às nascentes que formam os córregos, que formam e alimentam os rios. A retirada da cobertura vegetal natural, na realidade, é o princípio do fim.


Uma bomba ambiental à vista

Como fruto da criação dos elementos de infra-estrutura e da ocupação desordenada várias aglomerações foram se solidificando ao redor de postos de gasolina e serviços, que surgiram ao longo das rodovias. Com o passar dos tempos, essas aglomerações transformaram-se em vilas povoados e começaram a reivindicar sua emancipação política. O caso mais conhecido do Vale do São Francisco, recentemente, é o antigo Posto Mimoso, que se transformou no dinâmico município Luiz Eduardo Magalhães (BA). A emancipação do povoado de Jaborandi do município de Correntina (BA) trouxe conseqüências nefastas, pois o prefeito de novo município, no afã de transformar a região, incentivou a implantação de numerosas carvoarias, que acabaram com o cerrado e influenciaram drasticamente na diminuição dos cursos d’água e no desaparecimento de muitos destes cursos. Atualmente, o movimento para a emancipação do Posto do Rosário e Posto Nova Itália, ambos no município de Correntina, pode ser a chama que faltava para acender o pavio de uma bomba com teor explosivo incalculável. Isto porque ambos os postos (povoados) situam-se respectivamente nas cabeceiras e cursos médios dos rios Correntina, Arrojado e Pratudão. O povoamento dessas áreas foi feito por pessoas alienígenas, alheias às forças modeladoras da seleção natural local, que não conhecem e por isso não respeitam a vocação regional. E, como tanto o povoado físico quanto à pessoas que os recheiam são produtos de um sistema de ocupação predatória e nele foram criados jamais vão valorizar e entender a preciosidade do nativo. Os rios são fundamentais para as populações tradicionais, que fundaram as antigas cidades de Barreiras, Correntina, Carinhanha, Santa Maria da Vitória etc. Fazem parte da sua vida, é um pouco, pai, mãe e irmão e, como um feixe de luz, entra no cotidiano prático e imaginário dessa gente. Portanto a emancipação desses Postos de Gasolina, hoje vilas e povoados, situados nas cabeceiras e cursos médios desses rios, devem ser muito bem pensado, pois podem significar a trombose de veias importantes do São Francisco, além de se criar problemas sociais de grande magnitude.


Perspectivas, quais os danos? É possível realizar a transposição do São Francisco sem acelerar a morte do rio?
A idéia de aproveitamento das águas do São Francisco para projetos de irrigação de grande envergadura não é ruim, mas no estado de fragilidade e degradação em que se encontram seus alimentadores executá-lo é acelerar a morte do rio. A bacia tem que ser vista de maneira global. Como já é conhecido, o rio São Francisco integra um sistema composto por elementos intimamente interligados; qualquer alteração num desses elementos provoca alteração no sistema como um todo. As águas da bacia do São Francisco dependem basicamente dos aquíferos Urucuia e Bambuí, cuja recarga depende das águas das chuvas, absorvidas pelo complexo sistema radicular das plantas do cerrado. O cerrado é uma formação complexa que depende de inúmeros fatores para a sua existência, incluindo, entres estes fatores, alguns mamíferos que tem a capacidade de quebrar no mecanismo do seu intestino a dormência das sementes de algumas plantas e se tornam disseminadores dessas plantas, cujas tecnologias ainda não foram desenvolvidas para produção em viveiros. Outro fator importante é a polinização por vespas e abelhas indígenas endêmicas do cerrado. Não é necessário falar que a fauna do cerrado se encontra em processo acelerado de extinção, portanto o processo natural de disseminação vegetal está afetado. O cerrado, enquanto ambiente e formação vegetacional, já atingiu seu apogeu evolutivo. Isto significa que, uma vez degradado, não se recupera jamais na plenitude de sua biodiversidade. Algumas plantas do cerrado demandam séculos para atingirem a maior idade. Se considerarmos o cerrado com um todo, ou seja, incluindo todos os seus subsistemas, menos de 5% de sua área original estão preservados. Nos chapadões, onde ocorre a recarga dos aqüíferos, este índice é ainda menor. Não temos conhecimento se um projeto de reflorestamento ou revegetação com espécies exóticas daria certo nos diversos ambientes do cerrado e exerceria pelo menos algumas funções ecológicas que o cerrado exerce. Portanto, o melhor caminho é o caminho da prudência e da coragem. É necessário que uma liderança nacional forte assuma a bandeira da MORATÓRIA AMBIENTAL, pelo menos para o cerrado. Assim, o rio São Francisco, que já está doente, poderia ter tempo para se recuperar, na esperança que a ciência aponte alguma solução.
(Goiânia, Goiás, Brasil, abril/2006)

Por uma Universidade do Cerrado


O Bioma Cerrado em pé é um grande laboratório. Durante longos anos estamos chamando a atenção para os fatos negativos advindos da degradação deste importante conjunto de ambientes. A recém encerrada Conferência de Paris sobre as mudanças ambientais no planeta só vieram a reforçar o que há anos vimos falando sobre o tema.

Dentro desta perspectiva, torna-se imprescindível que os nossos representantes políticos, especialmente os goianos, Governador, senadores, prefeitos, deputados de modo geral, representantes no Conselho Federal de Educação, Arquidiocese de Goiânia e outras Dioceses, além de vários segmentos sociais, se alinhem junto ao Governo Federal para a criação da Universidade do Cerrado.

Antes porém de enfocarmos o cerne da questão, que se trata da necessidade urgente da criação de uma Universidade para estudar o cerrado em toda sua dimensão, gostaríamos de tecer um comentário elogioso acerca do pronunciamento do Reverendíssimo Arcebispo de Goiânia e Chanceler da Universidade Católica de Goiás Dom Washington Cruz, sobre a função, visão e papel estratégico que uma Universidade deve ter diante das exigências do mundo moderno. Sua fala realizada durante a XX Semana de Integração Acadêmica e Planejamento da UCG, recheada de sabedoria, trouxe uma grande esperança para aqueles que sonham com uma Universidade engajada, que busca na vocação regional as diretrizes para suas ações. Dois pequenos trechos do seu discurso ilustram o raciocínio acima.

... "A Universidade tem diante de si um imenso papel profético - afirmou, para explicar que, como instituição de ensino, de pesquisa e de extensão, tem a urgente tarefa de continuar formando a opinião pública acerca dos cuidados com o meio ambiente. De continuar oferecendo aos órgãos públicos que lidam com a questão ambiental os elementos de análise para uma eficaz gestão ambiental. De marcar uma presença colaborativa, propositiva e atenta à missão da Igreja de ser, para o mundo, sinal da salvação e do amor de Deus para com todas as Suas criaturas."

... "A experiência da vida no planeta passa por momentos cruciais, dramáticos, que nos interpelam fortemente como comunidade acadêmica, como docentes, pesquisadores, dotados do senso de responsabilidade social. As mudanças climáticas abruptas são o reflexo direto de uma certa mentalidade utilitarista que tanto marcou, sobretudo deste a revolução industrial, a relação do homem com o meio ambiente. Um dos maiores dramas que vai marcar as relações entre os povos, num futuro bem próximo, será a questão ambiental e a utilização dos recursos da natureza ou a proliferação de substâncias que agridem o ambiente e trazem conseqüências extremamente danosas para a vida."

Por que uma Universidade do Cerrado?

Porque hoje temos a certeza de que o Cerrado que se espalha pelos Chapadões Centrais da América do Sul, pela sua história evolutiva e ecológica, constitui-se num ponto de equilíbrio para a vida, não só do continente, mas para a vida de todo o planeta Terra. O conhecimento de seus mecanismos evolutivos, históricos e sociais, orientados por pessoas que pensam além do economicismo, poderá trazer benefícios concretos e imediatos para o Brasil, além de abrir em perspectivas a possibilidade de um novo modelo de escola.

Quando Darwin apresentou, em 1859, sua obra "A Origem das Espécies", convenceu muitos naturalistas de que os seres não tinham sido criados com formas físicas imutáveis, mas que tinham mudado graças a processos naturais, através de gerações, cobrindo longos períodos. Aqueles que mudaram para formas melhor adaptadas ao ambiente sobreviveram, os outros declinaram e extinguiram-se. A este processo Darwin denominou de seleção natural. Estes conceitos foram suficientes não só para revolucionarem a biologia, mas também todo o pensamento humano.

Os argumentos e fatos indicados por Charles Darwin não incluem os efeitos da inversão de polaridade do campo magnético terrestre, nem a deriva dos continentes, pois estes fenômenos eram desconhecidos ou mesmo inconcebíveis naquela época. Entretanto, os seus efeitos na evolução, diversidade e extinção das espécies constituem elementos importantes e só reforçam o mecanismo da seleção natural.

Esta introdução é oportuna para mostrar a dinâmica do cerrado, sob o olhar biológico e antropológico da seleção natural. Dentro dessa ótica podem-se perceber elementos que de outra maneira passam desapercebidos e a dinâmica da seleção natural tem a força de ressaltar a necessidade de iniciativas embasadas num seguro planejamento ambiental, que, por sua vez, esteja embasado num seguro conhecimento científico.

1) O primeiro ponto a ser levantado no sentido de se compreender esta dinâmica se refere à evolução dos continentes, procurando enfatizar o espaço que hoje corresponde aos chapadões centrais da América do Sul.



Durante o início do Paleozóico, a pelo menos 600 milhões de anos, uma grande massa continental formava a crosta terrestre. Este supercontinente denominava-se Pangéa e ostentava paisagens muito diferentes dos "stoks" que se conhecem atualmente. Somente a título de ilustração, no espaço que hoje corresponde ao território brasileiro formaram-se três grandes bacias de sedimentação, denominadas no Brasil de Bacia Amazônica, Bacia do Maranhão e Bacia do Paraná. Estas áreas, separadas por arcos geológicos, experimentaram durante milhões de anos, diferentes processos de sedimentação e ambientes, ora sendo marinho, ora terrestre e eram conectados com áreas similares no que hoje em dia corresponde à Antártida, África e Austrália, como atestam os processos sedimentares e a existência de fósseis semelhantes encontrados nestes locais.

No Permiano Superior, ou seja, no final do Paleozóico, a 220 milhões de anos, esta grande massa continental inicia um processo de cisão, baseado no deslocamento das placas tectônicas e no Triássico, início do Mesozóico, a 200 milhões de anos, já existem dois grandes blocos continentais, um ao norte denominado Laurásia e outro ao sul denominado Gondwana. Separando os dois supercontinentes se encontrava o mar Tethys, nome que significa mãe dos mares, segundo a mitologia grega.

A Laurásia estava constituída pelo que mais tarde seria a América do Norte, Groenlândia, e a parte da Europa e da Ásia que fica ao norte dos Alpes e Himalaia.

O continente de Gondwana, por sua vez, era constituído pelas terras que futuramente constituiriam América do Sul, África, Índia, Austrália e Antártida.

Ainda no Triássico, dois grandes blocos continentais começaram a se fragmentar em unidades menores, mas as fossas originadas entre estas unidades continentais não chegaram, no início, a constituir barreiras para o movimento dos animais terrestres. Entretanto, no período Cretáceo, no Mesozóico Superior, a 65 milhões de anos, os obstáculos já não permitiam esta comunicação. É importante salientar que esta época coincide com um período de extinção em larga escala dos grandes répteis.

Quando os mamíferos começam a diversificar no final do Mesozóico e Terciário Inferior o início do Cenozóico, a separação dos continentes parece ter chegado ao máximo. Isto aconteceu por volta de 65 milhões de anos. E a partir desta data não se formaram novas rotas de migração. As áreas terrestres foram por sua vez diminuídas. Houve elevação do nível do mar, as águas inundaram as margens dos continentes e formaram grandes mares interiores, alguns dos quais fracionaram completamente os continentes. Por exemplo, nesta época a América do Sul se constituía de duas zonas emersas separadas por água, que ocupava a região que mais tarde formaria a Amazônia.


2) Outra abordagem importante a ser colocada, no sentido de ressaltar o caráter peculiar do Cerrado, se refere ao princípio da irradiação adaptativa

Neste sentido, convém enfatizar a seguinte questão: num ambiente estável, as espécies animais e vegetais tornam-se especializadas, cada espécie ocupando seu lugar na cena ecológica e assim continua até que todos os nichos sejam efetivamente ocupados. A fauna ganha então um estado de equilíbrio em que o coeficiente de produção de novas espécies é igual ao da extinção de espécies existentes. As menores alterações nas condições do ambiente ou habitat produzem pequenas flutuações em torno da posição de equilíbrio.

Em princípios do Terciário, a 60 milhões de anos, a primitiva América do Sul esteve ligeiramente conectada com a América do Norte, mas em seguida esteve completamente isolada até o Pleistoceno Superior, a 18 milhões de anos. A prova desta conexão está na presença de duas ordens de mamíferos fósseis que correspondem a mamíferos comuns às duas Américas: ordem Edentata e Notoungulata.

Este fator, associado a outros, foi fundamental no equilíbrio e delineamento da fauna atual da América do Sul e consequentemente dos animais que mais tarde constituirão a fauna do Cerrado.

Outras quatro ordens de mamíferos são exclusivas da América do Sul: os Paucituberculata - que envolvem os marsupiais, os Pyrotheria, animais já extintos, semelhantes aos elefantes, os Litopterna, ungulados herbívoros, já extintos, parecidos com os camelos e cavalos atuais, e os Astropotheria, grandes ungulados herbívoros atualmente extintos.

A penetração de animais carniceiros da América do Norte para a América do Sul através do Istmo do Panamá, durante o Pleistoceno Superior, associada posteriormente à atividade de caça dos primitivos grupos indígenas, que nesta época já habitavam a América e ainda as mudanças ambientais decorrentes do final da glaciação de Wisconsin, foram fatores decisivos na alteração do equilíbrio ambiental, o que levou à extinção em larga escala da megafauna sul-americana. A partir daí um novo padrão faunístico se configura até a fauna atual, que é de médio e pequeno porte.

No que se refere à flora, pode-se atribuir ligeiramente o mesmo princípio. Dessa forma, a flora brasileira e a africana compartilham muitos ancestrais comuns que, num processo de evolução paralela, associada a agentes climáticos e geológicos diferenciados, apresentam certas semelhanças, embora sejam distintas.

O CERRADO, entendido aqui como sistema biogeográfico, tem sua história evolutiva ligada aos principais processos experimentados pelos vegetais, o que culminou com a formação da flora atual, mas está intimamente ligado também às mudanças ambientais, que aconteceram na área que hoje corresponde a grande parte do território brasileiro, principalmente a partir de 65 milhões de anos. Nesta época, num período denominado Cretáceo, da era Mesozóica, existiam grandes desertos nas áreas hoje correspondentes ao Brasil, sendo que o maior desses desertos recebia a denominação de Botucatu. Daí para frente, porém, houve uma sensível atenuação da aridez, posto que a maior parte do território tenha comportado climas quentes semi-áridos e subúmidos, segundo se deduz, dos tipos de sedimentos e suas microestruturas. Nessa época, uma geografia de grandes lagos rasos, situados em depressões detríticas interiores, limitadas por terrenos semidesérticos, de extensão subcontinental, era a paisagem dominante. Isto ocorreu porque a maior parte dos rios formava drenagem endorreica, ou seja, nascia e desaguava no interior do continente. Nesse tempo, a vegetação era do tipo subdesértica e, provavelmente devido à tipologia geral dos solos, teria sido uma flora diferente de todas aquelas conhecidas no País.

O soerguimento Pós-Cretáceo do Planalto Brasileiro criou outras paisagens sob a vigência de climas bem mais úmidos do que os do Cretáceo, e a custa de drenagens que foram preferencialmente exorreicas, isto é, com franca saída para o mar. Este esquema novo de topografia mais compartimentado e de solos relacionados com climas mais úmidos perdurou por longos períodos do Terciário. Neste contexto surge o Cerrado, que é a mais antiga das paisagens da história geológica recente da Terra. É também a partir do Cretáceo que se consolidam os três maiores aqüíferos do Continente e talvez do mundo: o aqüífero Bambuí, o Urucuia e o Guarani. Cuja totalidade ou bordas, no caso do Guarani, se situam na área hoje ocupada pelo Cerrado. Por isso, todas as grandes bacias hidrográficas do Continente têm suas nascentes ou seus principais alimentadores situados na área do Cerrado.

Uma outra questão importante se refere à teoria do escleromorfismo oligotrófico, proposta por Arens para explicar a gênese do ambiente de cerrado strictu sensu. Este autor admite que o pronunciado xeromorfismo do cerrado seja uma conseqüência das condições oligotróficas do solo. Afirma que um dos fatores principais seja, provavelmente, a relativa escassez de nitrogênio assimilável que pode originar o escleromorfismo oligotrófico, fazendo com que a vegetação peculiar do cerrado seja selecionada pela deficiência de minerais, tendo-se adaptada à mesma. Estudos posteriores de Goodland, Kuhlmamm e Coutinho, dentre outros, comprovam esta afirmação. Arens também afirma que o fogo é um fator que acentua o oligotrofismo, influindo dessa maneira sobre a conservação e propagação do cerrado. Nessa perspectiva a ação do fogo deve ser levada em consideração, quando se tratar de áreas de preservação, com vegetação de campo e cerrado strictu sensu. É por causa do caráter oligotrófico que as plantas do cerrado necessitam seqüestrar grande quantidade de carbono para seu desenvolvimento.


3) Uma terceira abordagem importante se refere à questão do povoamento humano, as ações antrópicas decorrentes desse processo e suas relações com a seleção natural.

Com toda segurança pode-se afirmar hoje que entre 18.000 e 16.000 anos atrás um contingente populacional cruzou o istmo do Panamá e veio de forma mais densa e efetiva povoar a América do Sul. Essas populações no início se acomodaram em nichos específicos do noroeste da América do Sul, onde puderam desenvolver uma cultura cuja economia se baseava na caça especializada de megafauna. Este sistema de vida perdurou de forma efetiva até por volta de 12.000 anos atrás quando a maior parte dessa fauna específica entra num processo de extinção. À medida que o processo de extinção se acentua as populações humanas aí situadas começam a buscar novas alternativas de sobrevivência, o que pressupõe novas formas de organização do espaço e planejamento social.

Nesta perspectiva buscaram-se novos ambientes e teve início um processo migratório em direção leste. Da cultura baseada na caça especializada resulta uma cultura baseada na caça generalizada de animais de médio e pequeno portes. A organização social representada por esses agrupamentos humanos eram bandos compostos de famílias aparentadas que migravam de um lugar para o outro, na medida em que os recursos alimentícios se esgotavam ou apareciam plantas comestíveis próprias de cada estação. Descendo os contrafortes da Cordilheira dos Andes, esses bandos vieram parar na Amazônia Brasileira, atraídos pela diversidade de flora e fauna que caracteriza uma grande mancha de cerrado, que naquela época existia nos baixos chapadões da Amazônia e chapadões Centrais da América do Sul. Estes dados são hoje comprovados pelos estudos de Halffer, Vanzolini, Ocsenius, Prance, Noble, Brown Jr., Greemberg, Rodrigues, Ab'Saber, e vários estudos de Palinologia.

Quando a floresta amazônica começa a coalescer sobre as áreas de cerrado existentes nos baixos chapadões, força um processo de migração faunística, que migra para a grande área existente no Centro da América do Sul; a migração faunística favorece no mesmo sentido uma migração humana.

A área core de cerrado dos chapadões centrais da América do Sul deve ser entendida como um Sistema Biogeográfico, composto por subsistemas interatuantes e interdependentes tanto no aspecto florístico como no aspecto da fauna. Há ambientes secos e úmidos durante todo o ano. A vegetação varia de um gradiente de campo limpo, até um gradiente de mata. Esta diversidade de ambiente empresta à biodiversidade do cerrado um caráter peculiar e seus aspectos evolutivos fizeram com que processos culturais diferenciados também ocorressem de forma "sui generis", transformando a região do cerrado numa espécie de fronteira cultural.

Na realidade alguns dos mais importantes processos culturais americanos nasceram no cerrado, como a formação do tronco lingüístico Macro-Jê, a domesticação e disseminação de certos tubérculos e outros vegetais e o desenvolvimento da tecnologia de caça, pesca e processamento de recursos vegetais nativos e certos cultígenos.

O estudo detalhado de diversas comunidades indígenas habitantes do cerrado demonstra que essas populações aprenderam sabiamente a desenvolver mecanismos adaptativos e planejamento ambiental e social que fossem capaz de lhe permitir uma vida em abundância. Assim são os Kayapó, que habitam as áreas mais elevadas, os Karajá, específicos da calha do Araguaia, os Xavante etc.

Todos estes fatores reunidos fazem com que o cerrado seja um laboratório antropológico único, no qual se deve olhar e aprender para, com sabedoria, saber planejar o futuro.

A população indígena que povoou o cerrado não produziu qualquer modificação brusca no equilíbrio do ecossistema, porque inicialmente os homens eram poucos e o nicho adaptativo era amplo.

Até que a população humana crescesse a ponto do seu tamanho ser prejudicial, coube à seleção natural levar a termo uma adaptação primorosamente equilibrada aos recursos ambientais.

A chegada dos exploradores, de origem européia, trouxe conseqüências bem diversas, por duas razões:

- A principal finalidade não era o povoamento e sim a exploração comercial।

- Mantiveram um contato íntimo, ou com a mãe pátria ou com um poder central deslocado, a quem competia ditar as mercadorias a serem fornecidas e o preço das mesmas.

Portanto pela primeira vez em sua longa história a região do Cerrado ficou sob a influência contínua de um agente que era alienígena ou exótico, consequentemente imune às forças modeladoras da seleção natural local.

No início a devastação foi mínima, mas com o passar dos tempos os sinais destas já eram bastante visíveis. O aumento da imigração acelerou cada vez mais o processo de degradação. Surgiram epidemias novas, que contribuíram para dizimar populações indígenas, como a gripe, o sarampo, a varíola e tal qual como aconteceu em outras áreas do país, a entrada de escravos africanos introduziu a malária e a febre amarela.

O crescimento demográfico também é algo surpreendente, principalmente de 1950 para cá e, é bem provável que depois de 2010 a região do cerrado tenha uma população tão grande que escape às políticas de planejamento. Esta perspectiva é aterradora, tendo em vista a magnitude da degradação que já ocorreu com uma densidade demográfica bem menor.

A partir da década de 1950 implanta-se no Brasil um modelo econômico chamado desenvolvimentalista, onde a meta é atingir o desenvolvimento a todo custo.

Essa política que, no início, é executada de forma até ingênua, a partir dos governos militares de 1964 adquire um caráter ideológico e a partir desse momento o hemisfério começa a presenciar uma grande revolução. Não uma revolução do homem para o homem, mas uma revolução do desrespeito à vida humana e à vida do ambiente.

Dentro dessa perspectiva o cerrado é recortado por inúmeras estradas, rios são represados, montanhas aplainadas, vegetação derrubada, animais ameaçados de extinção, e comunidades tradicionais são desestruturadas num ritmo nunca visto na história da civilização.

Ambiciosos projetos de colonização, sem o mínimo de planejamento e conhecimento, com objetivos puramente políticos, são postos em execução.

Fatos recentes atestam a pujança que este modelo desenvolvimentista tem, como a ocupação desordenada do cerrado por capital alienígena para projetos de reflorestamento com espécies estranhas e produção maciça e efêmera de grãos para exportação. A formação de grandes lagos para geração de energia, cujas conseqüências provocam inúmeras entropias em termos de saúde; por exemplo, podemos ver os sinais de um grande iceberg que virá por aí na forma de epidemias de algumas doenças extremamente devastadoras, como a esquistossomose, a leximoniose e a raiva, cujos efeitos a população atingida pelos lagos e barragens já está sofrendo.

Assim é que no início do século 21, encontra-se em suspense o destino do cerrado.

Se as próximas décadas trarão sua ruína ou salvação, ainda não se pode dizer.

Embora sejam grandes as lacunas no nosso conhecimento, dispomos de informações suficientes para impedirmos uma degradação irreversível.


4) O que se pode afirmar é que enquanto o desejo de explorar o cerrado não levar em consideração a vocação regional, a possibilidade de um programa racional de desenvolvimento será nula.

Esta perspectiva é ainda mais trágica porque só o Homo sapiens, entre todos os seres vivos, tem a capacidade de encarar o seu meio ambiente dentro de uma escala mais abrangente, não se limitando à duração de uma vida. Quando analisamos as atividades humanas, dentro da perspectiva do tempo geológico, somos forçados a reconhecer que o que está acontecendo na biosfera, hoje em dia, nada tem de comum. De fato, desde que os organismos primordiais desenvolveram a capacidade de liberar oxigênio, por volta de centenas de milhões de anos, nenhuma das espécies novas desenvolveu a habilidade de alterar as condições de adaptação da vida sobre a terra. Os continentes mudaram de forma, as geleiras avançaram e recuaram, os mares se ergueram, algumas montanhas submergiram e os pólos se deslocaram, mas os parâmetros físicos e químicos permaneceram essencialmente os mesmos.

Agora, de repente, novos compostos químicos, em concentrações anormais, estão sendo lançados na água, no solo e no ar. Do mesmo modo que as populações indígenas do cerrado, foram quase que exterminadas pelas doenças do Velho Mundo, assim também as plantas e os animais que evoluíram durante dezenas de milhões de anos são incapazes de enfrentar produtos químicos estranhos, introduzidos bruscamente no seu habitat.

Conhecendo de uma maneira geral como opera a seleção natural, podemos predizer com toda a segurança que das milhares de espécies que restaram, poucas serão pré-adaptadas às novas condições, mas nada garante que o Homo sapiens venha a figurar entre os sobreviventes.

Conduzir o Homem do cerrado e a humanidade através dessa crise ecológica é o maior desafio para todos nós, que um dia tomamos consciência da gravidade e da grandeza desse problema.

A possibilidade da criação de uma Universidade do Cerrado abriria entre as universidades brasileiras a busca de soluções para estes tipos de problema e ainda poderia abrir a perspectiva de novos modelos de universidades, onde a teoria poderia caminhar de mãos dadas com a prática, pois a Universidade que une teoria e prática inevitavelmente é holística, multidisciplinar e transdisciplinar, categorias de saberes importantes para a formação de novas mentalidades e formação global do homem.

Na prática este modelo efetuaria com eficiência a pesquisa, o ensino e a extensão, categorias que nos modelos tradicionais estão impossibilitadas de se associarem e se desenvolverem conjuntamente.

Para a criação de uma Universidade do Cerrado pouco se gastaria em termos de recursos humanos, pois algumas instituições federais, como IBGE, Embrapa-CPAC, Universidade Federal de Goiás, além de Centros de Excelência em instituições particulares como o Instituto do Trópico Subúmido e o Instituto de Pré-História e Antropologia, ambos da Universidade Católica de Goiás, poderiam se agregar para formar o corpo profissional dessa nova Universidade.

Outro ponto importantíssimo a destacar é que pela grande quantidade de recursos que o cerrado possui em função de sua diversidade geológica, florística, faunística, cultural etc., e pela experiência dos profissionais envolvidos, uma Universidade do Cerrado tem todos os meios para se tornar auto-sustentável.

Este grande laboratório que é o cerrado, de importância fundamental para o mundo moderno, está somente à espera de que alguma liderança com influência política assuma a bandeira de organizar uma equipe para sua implantação.

Era época em que um dragão voraz olhava para aquelas plantas com apetite devorador. Chegou a época da racionalidade antes que o dragão voraz nos devore.

(abril/2007)

Semana do Índio

Uma dívida com a história e um buraco na consciência

Estamos em abril, certamente alguém lembrará, que neste mês é comemorado o Dia do Índio, 19 de abril. Muitas fotos serão publicadas e alguns artigos irão rechear as páginas dos jornais e revistas e ilustrar imagens da televisão. Nesta perspectiva, aproveitamos a oportunidade para colocarmos alguns pontos que possam esclarecer a real história e situação indígena, na região do cerrado. A compreensão destes pontos é de fundamental importância, para que inspire nos homens a busca da construção de uma sociedade justa.

Embora marginalizados desde o início pela colonização portuguesa, a cultura indígena era tão forte que contribuiu de forma decisiva para a formação da identidade do povo brasileiro. E, se penetrarmos além das aparências, veremos que nós brasileiros carregamos a cada momento do nosso cotidiano vários elementos indígenas: nos gens, na alimentação, nas músicas e nos inúmeros medicamentos, nos mitos etc. O nosso lado de predarmos a natureza certamente não herdamos do índio.

Se pudéssemos recuar no tempo talvez resumiríamos de forma poética essa história da seguinte forma:

O sol ainda tingia de dourado as folhas do buriti, quando pela primeira vez o índio pisou nessa terra Pindorama.

Isto foi há muito tempo; de lá para cá, mais de 550 gerações se passaram.

No início eram grupos nômades, caçadores e coletores; muito tempo depois eles se transformaram em agricultores e colonizaram os verdejantes vales desta terra. Neste local, implantaram suas grandes aldeias e seus roçados.

E, assim, viviam tranqüilos, respeitando a riqueza do ambiente e as fronteiras que estabeleceram.

Depois que os troncos e famílias lingüisticas se formaram, Tupi foi para o norte, Guarani para o sul, Tupinambá para o litoral e os guerreiros povoaram o centro da América do Sul.

Entretanto, como antropólogo e arqueólogo, sentimos-nos na obrigação de esmiuçar com dados concretos, os passos dessa história, mesmo que seja ainda resumida.

A região do Cerrado é um ponto de encontro entre a Amazônia, o Nordeste e o Sul. O planalto é recortado pelos rios das três grandes bacias brasileiras (do Amazonas, do Paraná e do São Francisco), acompanhadas de matas de galeria, ora mais ora menos largas. No encontro dos rios das três bacias formou-se uma extensão maior de floresta, conhecida como Mato Grosso de Goiás.

As áreas de matas oferecem solos para cultivos, a serem instalados no começo das chuvas. Por outro lado, o cerrado é muito rico em caça e em grandes variedades de frutos que podem complementar a agricultura no começo das chuvas, os rios proporcionam muito peixe no começo da estação seca.

Muito antes dos horticultores ceramistas, os caçadores e coletores pré-cerâmicos se haviam esparramado pelo território, utilizando os recursos de acordo com suas necessidades e em conformidade com sua tecnologia. Não se tem ainda nenhuma idéia de quando e como se instalaram os cultivos. Aparentemente, eles não surgiram nesta área, porque as diversas tradições tecnológicas até agora estudadas pertencem a horizontes mais amplos e as datas mais altas para horticultores já instalados se encontram fora da região.

Faz exceção a Tradição Uru, até agora só conhecida no oeste de Goiás, mas que certamente ultrapassa os seus limites em direção ao Estado de Mato Grosso, ainda não pesquisado. Os cultivos poderiam ter chegado através da migração de grupos horticultores, ou pela aculturação dos caçadores e coletores anteriormente aí presentes, que os poderiam ter recebido de vizinhos. É possível que ambos os fenômenos tenham ocorrido.

Certamente não se pode mais resumir todo o jogo do povoamento em deslocamentos de grupos já prontos, por que sobra a pergunta: onde estes se formaram? Certamente, como nas outras áreas do mundo, os sistemas agrícolas desenvolvidos por populações indígenas, como as de Goiás, são o resultado final de um longo processo de experimentação, de coleta, cultivo e domesticação, desenvolvimento e empréstimo de técnicas de um ajustamento da sociedade.

Talvez a transição do período úmido e quente do altitermal para um período mais seco e ameno, fato que ocorreu por volta de seis mil anos antes do presente, fosse a ocasião do aparecimento da agricultura na região. O fato é que no centro do Brasil ainda se desconhece por completo todo o processo, porque depois dos caçadores se encontram de repente, já formados, os horticultores ceramistas num tempo em que o ambiente supostamente já era o atual. O mais antigo até agora detectado é denominado pela arqueologia como Fase Pindorama, supostamente horticultor, que já tem cerâmica ao menos desde 2.500 anos antes do presente. Toda essa denominação se refere à classificação usada pela arqueologia. Depois aparece a Tradição Aratu/Sapucaí, a Una, a Uru e a Tupiguarani.

As diferentes Tradições (cerâmicas) de horticultores exploram ambientes e cultivos diversos. A Tradição Una coloniza vales enfurnados, geralmente pouco férteis, com predominância de cerrados usando como habitação os abrigos e grutas naturais e como economia uma forte associação de cultivos, onde predomina o milho, com a caça e com a coleta. Imagina-se que a população se distribuía em pequenas sociedades, mais aptas para explorar os recursos diversificados que poderiam alcançar do seu ponto de instalação: o rio próximo, a pequena mata de galeria, o cerrado e muitas vezes o campo no alto do chapadão. Este ambiente não é disputado pelos grupos que constroem suas aldeias em áreas abertas.

Os primeiros aldeões conhecidos são os da Tradição Aratu/Sapucaí. Seus domínios são os contra-fortes baixos das serras do centro-sul e leste de Goiás, especialmente as áreas férteis e mais florestadas do Mato Grosso de Goiás, onde podem instalar uma economia mais fortemente dependente de cultivos, mas provavelmente sem dispensar a exploração dos frutos do cerrado, a caça e a pesca. Sua população é numerosa e nenhum outro grupo conseguiu infiltrar-se no seu território, que por seus recursos deveria ser muito ambicionado.

Suas aldeias populosas poderiam permanecer longamente no mesmo lugar e quando era desejado poderia se deslocar para um espaço próximo porque o território era fértil e estava sob seu domínio. Também o sistema de cultivo, baseado em tubérculos e provavelmente no milho, pôde resistir aos avanços dos grupos mandioqueiros da Tradição Uru e Tupiguarani.

A Tradição Uru chega mais tarde e domina o centro-oeste do Estado. Avançando ao longo dos rios, ocupa terrenos mais baixos, provavelmente de pouca utilidade para os aldeões que haviam se instalados antes, mas importante para eles por causa da locomoção e principalmente da pesca. Desta forma se criou entre os dois grupos uma fronteira bastante estável, mas talvez não sempre pacífica, onde aparentemente a Tradição Aratu é mais receptiva, aceitando elementos tecnológicos selecionados, entre os quais não está a mandioca e seu processo de transformação, aceito apenas em locais restritos.

A Tradição Tupiguarani parece ser a mais recente das populações aldeãs do cerrado. Teve um certo domínio sobre o vale do Paranaíba; a partir dele acompanha os afluentes, indo acampar nos abrigos anteriormente habitados pela Tradição Una. Também tem aldeias dispersas na bacia do Alto Araguaia, mas aparentemente sem muita autonomia, convivendo às vezes na mesma aldeia com grupos horticultores de outras Tradições.

O Tupiguarani da bacia do Tocantins tem as aldeias ainda mais dispersas e recentemente, como se realmente fosse, tal qual se imagina, populações vindas já no período colonial, este fato contribuiu para que enfrentassem não só os demais índios aldeões já instalados, mas também os colonizadores brancos que os teriam trazido.

Se a Tradição Uru e a Tradição Tupiguarani, mandioqueiros, parecem mais próximos às culturas amazônicas, embora talvez não tenham procedência imediata de lá, a Tradição Aratu/Sapucaí faz parte de uma Tradição mais de Centro-Nordeste. A Tradição Una, com menos domínio sobre as áreas abertas, disputadas pelos aldeões da Tradição anterior, se comprime numa faixa entre estes e as populações coletoras e cultivadoras do planalto meridional, tradicionalmente conhecidas por suas aldeias de casas subterrâneas. Não obstante esta sua posição marginal, é nela, fora da amazônia, que estão as datas mais antigas para a cerâmica; talvez seja ela uma forma de cultura anterior ao desenvolvimento dos aldeões e, quem sabe, a origem deles.

Talvez com exceção do Tupiguarani, os representantes das outras Tradições de grupos horticultores viveram no território durante séculos sem muita movimentação, como numa terra que era deles; entre 70 e 100 gerações de horticultores sem maiores mudanças, a não ser as normais adaptações de fronteiras, onde populações mais antigas aceitem novas tecnologias recém-vindas.

E, assim viviam, até o dia em que irromperam na área, em grandes destacamentos armados, homens diferentes, não interessados em plantar, colher e caçar, nem em construir aldeias entre o cerrado e a mata, ou à beira da lagoa ou do rio. Queriam levar gente, pedras brilhantes e ouro. Para muito longe. Meados do século XVII.

Foi o caos. As roças foram pilhadas, as aldeias foram demolidas, as mulheres violentadas, as terras de cultivo invadidas, as pessoas morrendo de doenças desconhecidas. A guerra foi a solução ditada pelo desespero. A derrota, o aldeamento, a desmoralização, a extinção ou a fuga foram as conseqüências. Este é o tipo de relações sociais que herdamos e que molda nossa sociedade atual. Espero que este exemplo nos faça refletir e nos impulsione para a busca de um novo alvorecer, que faça brotar em nossos corações um raminho de coragem.

(abril/2006)

Lula e o pé de sabiú

Entre os geraiseiros, povos que habitam ou exercem atividades nos gerais, que é um tipo de cerrado semelhante ao descrito por Guimarães Rosa em "Grandes Sertão: Veredas", existem duas lendas interessantes associadas ao pé de Sabiú, planta frondosa pertencente à família leguminasae e muito comum nos gerais.

A primeira diz que se alguma pessoa, por descuido, passar por debaixo de um pé de Sabiú fica totalmente desorientado, perde a noção das coisas, perde a consciência e fica vagando sem rumo e sem direção. Entre as inúmeras histórias, contam que certa vez um vaqueiro experiente saiu à procura de uma rês desgarrada e, sem se dar conta, passou por debaixo de um pé de Sabiú, logo perdeu a noção dos seus objetivos e por dois dias sequidos vagou sem rumo até chegar a um rancho de um antigo amigo e conhecido. Só que ao chegar ao local não reconheceu as pessoas que ali moravam, seus amigos de longa data. Os moradores do rancho, experientes, logo perceberam o que havia acontecido. Tomaram então o vaqueiro e fizeram-no deitar de bruços por cerca de trinta minutos. Durante este tempo dizem que o vaqueiro teve um sono profundo e quando acordou estava curado, recuperou a consciência, reconheceu e ouviu os amigos e, após se alimentar, seguiu seu rumo determinado.

A segunda lenda reza que pequenas personagens do mato em forma de gente, talvez duendes, todas as sextas-feiras à noite se reúnem em baixo de um pé de Sabiú para festejarem alguma alegria e felicidades. Conta a lenda que no povoado de Riacho D'Água existia um pobre corcunda que era muito maltratado e recebia várias zombarias da gente daquele povoado. Um dia, cansado de tanta humilhação e sem perspectiva, resolveu fugir e andou sem ermo pelos gerais; quando o cansaço bateu, descansou debaixo da sombra de um Sabiú, pois debaixo desta árvore o terreno é sempre limpo. E ali garrou no sono, esganchado numa forquilha da árvore.
Era sexta-feira. À noite chegaram várias criaturinhas que, brincando-de-roda, começaram a cantarolar uma música cuja letra repetia o refrão:
Segunda,
Terça,
Quarta,
Quinta,
Sexta.

O corcunda, animado com a música, pediu aos duendes para participar da brincadeira, sempre repetindo o refrão:

Segunda,
Terça,
Quarta,
Quinta,
Sexta.

E assim teve na vida um raro momento de alegria e felicidade. Diz a lenda que, quando a festa terminou, as criaturinhas indagaram ao corcunda porque estava ali, naquele momento. O corcunda então pôs-se a contar a sua história. As pequenas criaturas, que tinham poderes mágicos, retiraram a corcunda do indivíduo e a dependurou num galho de Sabiú, deram a este roupas novas, muito dinheiro e lhe disseram que poderia voltar para o povoado de Riacho D'Água, que sua vida iria mudar. O ex-corcunda caminhou então de volta e após alguns dias chegou ao povoado. Logo na entrada encontrou uma pessoa que o reconheceu. E, assustado, lhe perguntou o que havia acontecido. Este narrou detalhadamente. A pessoa, na ganância do dinheiro e do poder, saiu correndo procurando o local e, quando o encontrou, subiu num dos galhos da árvore e esperou a noite de sexta-feira chegar. Quando esta chega, eis que para sua surpresa apareceram as criaturas que o ex-corcunda descreveu.

Estas então começaram a entoar sua cantiga, dançando em roda, sempre repetindo o refrão:

Segunda,
Terça,
Quarta,
Quinta,
Sexta.

Num belo momento, quando a dança já estava bem animada ao repetirem o refrão - Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta - as criaturas ouvem um som vindo do alto dizendo: Sábado e Domingo também. Atônitos, olham para cima da árvore e avistam a pessoa que modificara o refrão da música.

Indignados, fazem a pessoa descer da árvore, retiram do galho a corcunda que lá ficara e implantando esta nas suas costas o expulsam do local.

Ao analisarmos o desempenho do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva encontramos muita semelhança com a lenda do Sabiú. A impressão que temos é que o Presidente pode ter passado por debaixo desta árvore, ficando totalmente desorientado, esquecendo o que havia proposto no seu Programa de Governo, perdendo a direção do futuro e do rumo certo.


A declaração de Paris, sobre caixa 2, concomitante com as declarações de Delúbio e Valério sobre o mesmo assunto, demonstra a falta de bom senso e esta desorientação. As incertezas da política social, a fragilidade da segurança pública e uma política econômica que não condiz uma vírgula com o discurso da vida inteira, são alguns dos sinais da desorientação total.

A política cultural se assemelha ao homem que quis mudar o refrão da música cantada pelas criaturinhas da floresta, ou seja, não respeita a identidade do povo brasileiro.
A educação prima pelo quantitativo e não é capaz de estancar o sucateamento das Universidades Federais. A burocratização desenfreada do CNPq é um obstáculo para as pesquisas e inovação.

O incentivo ao agro-negócio predatório, a liberação dos transgênicos, as obras de grande impacto ambiental, como transposição do São Francisco, demonstram que a tão propalada coerência anda em circulo sem rumo e sem direção.

Seria bom que o presidente Luís Inácio Lula da Silva tomasse a postura do corcunda humilde, respeitando as tradições e as vocações do povo brasileiro. A ganância só ganhou uma corcunda para o resto de vida. Porém, seria melhor ainda que Lula se pusesse a deitar de bruços e tirasse um sono profundo de trinta minutos; assim, poderia recuperar a consciência, reconhecer e ouvir seus amigos verdadeiros, enxergar neles a coerência de sempre, recuperá-la e retomar o rumo certo.

Nunca é tarde!

(janeiro/2006)

O humilde pensador

A humildade é uma grande virtude, mas às vezes ela é tão forte que se torna capaz de ofuscar o brilho de pessoas geniais, cujos pensamentos, conceitos e propostas não são totalmente conhecidos, ou são simplesmente desprezados, por falta de ousadia.

O Brasil é um país onde já surgiram grandes pensadores, alguns inimitáveis, como José do Patrocínio, Gilberto Freire, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa e tantos outros. Entretanto, poucos foram os pensadores brasileiros que extrapolaram os limites da globalidade, tornando-se universais, e esses poucos só conseguiram esta conquista porque sempre incluíram nas suas formulações teóricas os preceitos da vocação regional para explicar a modernidade. E, mesmo considerando o regional, a realidade apresentada por estes pensadores sempre se inseriu num contexto globalizante.

Assim foi o professor Josué de Castro, médico e geógrafo brasileiro, que criou a FAO para que o mundo pudesse entender a Geopolítica da Fome.

Assim foi o professor Paulo Freire, que utilizando um complexo e revolucionário conceito de diálogo baseado na cultura e nos valores regionais, criou um método universal de alfabetização e conscientização.








Assim foi o professor Darcy Ribeiro, que baseado num método original de processo civilizatório, conseguiu com clareza explicar as configurações histórico-culturais dos povos americanos e em especial do povo brasileiro.

Assim foi o professor Milton Santos, que conseguiu dar uma dimensão real da importância da geografia, num mundo cada vez mais globalizado, mas que não deve desprezar jamais as nuanças locais.









Assim foi o professor Anísio Teixeira, cuja concepção de Educação, de tão avançada, sequer foi ainda hoje assimilada pelos nossos pedagogos, que não levam em consideração as vocações regionais.

Assim foi o professor Celso Furtado, que tendo por base os problemas e as especificidades históricas, políticas, sociais e econômicas regionais, conseguiu explicar a Formação Econômica do Brasil.




Assim é o professor Aziz Ab'Saber, que interpretando as formações goemorfológicas e as associando com as ciências de natureza humana, conseguiu explicar fenômenos sociais, outrora imperceptíveis.








Assim também é o professor Horieste Gomes, que utilizando conceitos da globalização, sem desprezar o regional, contribuiu enormemente para a compreensão da formação histórica e geográfica do Brasil e de Goiás e propor mudanças fundamentais no que concerne um dos mais graves problemas de nosso tempo: a questão ambiental.

Estes ilustres pensadores brasileiros, ditos universais, compartilham muitos elementos em comum. Todos foram ou são educadores na acepção maior da palavra, pois sabem o que ensinam e os seus saberes, além de serem frutos do árduo trabalho de resgate do pensamento humano produzido ao longo do tempo, resultam também de suas produções próprias, advindas da pesquisa científica.

Por onde passaram deixaram rastros indeléveis de sua presença marcante, sempre na forma de uma grande obra, uma Universidade, um Instituto, um grande curso, um laboratório de pesquisas etc.

Sempre publicaram obras científicas de real valor. E, por suas idéias avançadas, houve uma época em que tiveram de deixar o país na forma de exilados. Antes, porém, conheceram a arrogância de políticos ditadores, suas armadilhas e os porões frios de seus cárceres. Embora distantes da terra natal, os países que os receberam assimilaram deles o que tinham de melhor, na fase mais produtiva de suas vidas.

Os professores Josué de Castro, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Paulo Freire, Milton Santos e Celso Furtado já faleceram.

O professor Aziz Ab'Saber anda encostado por algum cantinho da USP, isto porque as nossas universidades nunca souberam aproveitar a experiência daqueles que podem ser multiplicadores e preferem investir na ingenuidade dos mais jovens, simplesmente porque seus salários são menores.

O professor Horieste Gomes voltou ao Brasil com a anistia. Está diariamente no Instituto do Trópico Subúmido da Universidade Católica de Goiás, onde sua labuta diária é orientar estagiários e bolsistas de graduação; quando sobra tempo, entrega-se com certeza à formulação e organização de mais uma grande obra.

Quem o vê, à primeira vista, passa ao lado sem cumprimentá-lo. Pensam, deve ser um "Zé Qualquer", encostado, por pena da Instituição, numa cadeira sem pompa à frente de uma escrivaninha simples. Sua humildade é tão grande, que em vez de enxergar os defeitos que porventura existem nas pessoas e nos simples objetos, prefere descobrir neles virtudes que sempre existem. Ele pouco se mostra, mas está sempre em evidência por sua sabedoria e bom senso.

Pouca gente sabe, mas o professor Horieste é um dos pioneiros da criação das duas maiores Universidades de Goiás - a UCG e a UFG. Na Católica, ajudou a modernizar o Curso de Geografia; na Federal, foi um dos idealizadores do Centro de Estudos Brasileiros, embrião do Curso de Geografia, além de participar da estruturação do Departamento de Geografia do Instituto de Química e Geociências (hoje IESA) e do então Instituto de Ciência Humanas e Letras.

É autor de uma dezena de livros e incontáveis artigos científicos sobre a geografia e o pensamento geográfico em Goiás, no Brasil e no mundo. Suas idéias sobre território e espaço entendidos no contexto do capital internacional o levaram aos porões de várias prisões no Brasil, onde foi torturado e depois exilado. Lá fora manteve contato com vários geógrafos europeus e, numa forma de intercâmbio que normalmente acontece, trocou idéias sobre as novas tendências da geografia face às mudanças políticas, sociais e econômicas que começavam a se delinear no mundo todo, sobretudo, no mundo capitalista, como, entre outras, a globalização. Isto aconteceu em Lund (Suécia), cuja universidade é uma das mais avançadas da Europa no que concerne ao pensamento geográfico moderno.

Pois bem, neste ano de 2007 o professor Horieste Gomes está completando 50 anos de magistério. É, pois, refletindo sobre suas obras, seu modo de ser, enfim, sobre seu cotidiano que podemos alimentar a esperança de, um dia, poder descobrir o local onde a virtude se escondeu, aprender a grandeza da humildade que sempre o iluminou e, desse modo, poder lhe render toda nossa admiração. Se hoje aprendemos a voar, com certeza ele é a nossa outra asa.

"Vamos, pois, pegar o mundo e virar do avesso,
Vamos juntar os homens num só mutirão,
Vamos chamar a vida pra brincar de roda,
Para assim manifestarmos nossa grande gratidão".
Obrigado Mestre Horieste

(março/2007)

Entre o efêmero e o eterno


Contam que, certa vez, um vaqueiro campeava pelo mato montado em seu cavalo, com certa tranquilidade, quando, de repente, o cavalo saiu em disparada jogando ao solo seu fiel cavaleiro. O vaqueiro, meio atordoado com a situação, pensou, com seu ar de matuto - uai! meu cavalo deve ter ficado doido. Mas quando olha para traz vê, a uns três metros de distância, uma grande onça pintada, sentada sobre as patas traseiras, que o fitava ternamente. Neste momento, o astuto vaqueiro, que estava sem nenhuma arma, imaginou: vou dar um grito bem forte, assim espanto a bichana e me refugio. Encheu os pulmões de ar e soltou o planejado grito. Foi aí que ele descobriu que estava mudo.

Traçando um paralelo com esta história ao ouvirmos atentamente a recém iniciada campanha política, as vezes chegamos à conclusão que estamos cegos, pois somos incapazes de enxergar as intermináveis lista de obras e iniciativas que cada candidato diz ter feito.

Mas o fato que mais nos chama a atenção, ao ouvirmos atentamente as propostas, é que quase todos os candidatos as apresentam baseados no imediatismo, sem levar em consideração as conseqüências dos atos, para um futuro próximo, principalmente quando o assunto é o meio ambiente.

Neste aspecto, o candidato deve levar em consideração as diversas noções do "tempo": o tempo do homem, o tempo do mandato, o tempo da natureza e o tempo da sobrevivência. Cada tempo tem o seu parâmetro.

Nos últimos anos temos alertado de várias maneiras para os riscos que uma política mal planejada para o meio ambiente pode acarretar para o futuro. Temos dado ênfase ao Cerrado, em função das diversas peculiaridades deste ambiente. Entretanto, apesar do clamor, o que constatamos a cada dia que passa é o esgotamento do cerrado em toda sua plenitude. Os órgãos governamentais responsáveis pelo meio ambiente insistem em minimizar o problema, baseados em dados mal interpretados, que não refletem a real situação da natureza.

Na iminência das eleições e na esperança de que algum candidato possa buscar mecanismos para um futuro melhor, destacamos alguns pontos que consideramos relevantes para a elaboração de uma política eficaz neste sentido.

Tomamos a liberdade de usar o verbo no passado ao referirmos às características do cerrado.

Desde a época geológica denominada Mioceno, há 25 milhões de anos, até 1950, o cerrado dos Chapadões Centrais do Brasil ocupava de forma contínua uma área de 2 milhões de km2, abrangendo hoje o que representam os Estados de Goiás, Tocantins, Distrito Federal, leste de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, oeste da Bahia, noroeste e centro/norte de Minas Gerais, Piauí, parte do Maranhão e parte de São Paulo. No presente, este ambiente natural não cobre 10% da área original.

Esta afirmação é feita baseada numa paisagem vegetal medida por populações de plantas e não por plantas isoladas. Uma população é caracterizada por um conjunto de pelo menos 30 plantas da mesma espécie que ocorrem num pequeno espaço geográfico. O contrário, a ocorrência aleatória de uma planta aqui, ali e acolá geralmente distantes entre si, é apenas uma faceta da degradação. A conseqüência imediata dessa situação é a impossibilidade de estudos científicos, em diversos campos do conhecimento: sistemática, genética, fitogeografia etc. e a impossibilidade destas plantas exercerem suas funções ecológicas. Mudando de planta para bicho, antes era comum avistarmos, nos nossos campos, manadas de animais da fauna nativa do cerrado. Com o passar dos tempos, em função da redução dos espaços de sobrevivência, a fauna nativa diminuiu drasticamente.

Com a intensificação da rede viária, era comum avistarmos animais da fauna nativa mortos nas estradas. Nos dias atuais, até este quadro triste não mais ilustra as margens das rodovias, fato este que é um indicador da diminuição drástica da nossa fauna, pois na área do cerrado nenhum corredor de migração faunística foi até então construído pelos governantes. Este é um fato deverasmente muito assustador porquanto a fauna do cerrado é o principal elemento responsável pela disseminação das plantas nativas, muitas das quais têm a dormência de suas sementes quebrada no intestino desses animais. Com a ausência dos animais, diminui a propagação dos vegetais nativos, mesmo porque ainda não temos tecnologia para produção e desenvolvimento em viveiros de 8% das plantas nativas do cerrado até então conhecidas, incluindo as arbóreas, herbáceas e gramíneas, cuja associação é de fundamental importância para a vida do bioma.

Muito tem se falado que o cerrado é o berço das águas. Em muitos escritos caracterizamos este ambiente como sendo a cumeeira da América do Sul. Isto porque as grandes bacias hidrográficas do continente têm seus formadores e alimentadores situados na região do Cerrado, em decorrência de que a região de Cerrado abrange três dos maiores aquíferos do planeta: o aquífero Guarani, que alimenta as águas do sul; e os aquíferos Bambuí e Urucuia, que alimentam as águas do norte e toda bacia do São Francisco.

Esses aquíferos vêm-se formando há milhões de anos. Atualmente, com a retirada da vegetação nativa de suas bordas, ou seja, dos chapadões, eles não estão mais sendo recarregados como deveriam, provocando o fenômeno das migrações, de nascentes, o desaparecimento de cursos d'água menores e a diminuição drástica do volume dos rios. Se a situação continuar sem mudanças em breve espaço do tempo teremos no centro da América do Sul um grande deserto para contemplarmos, e quem sabe, para satisfazer o desejo de uma pequena burguesia que teria enfim um espaço privilegiado para realização de seus rallys predatórios. Em tempo, a área principal de recarga dos aqüíferos ocorre nas suas bordas.

Atualmente, é comum ouvirmos nos discursos de representantes dos órgãos ambientais a palavra revitalização. Para se revitalizar uma área na região do Cerrado é necessário o conhecimento fitossociológico, o domínio de técnicas de produção de plantas nativas em viveiro, o estudo sobre o tempo de desenvolvimento destas plantas para exercerem a função ecológica etc. As plantas do Cerrado são espécimes extremamente complexas, com uma história adaptativa e evolutiva entremeada e dependente de diversos elementos, que variam desde um tipo específico de solo até a dependência de uma abelhinha nativa ou um tipo específico de borboleta polinizadora. Uma plantinha do Cerrado, para chegar a exercer sua função ecológica, pode necessitar de mais de 600 anos até atingir a idade adulta, como é o caso da Canela-de-Ema (Vellozia flavicans) e, apenas por curiosidade, alguém já conseguiu produzir Arnica (Chinolaena latifolia) em viveiro?

Falar, portanto, em revitalização tem que ter profundo conhecimento da biodiversidade em sua plenitude, e, principalmente, estudar a fundo a história evolutiva do cerrado. E, por falar em evolução, seria bom relembrar que de todos os ambientes recentes do planeta, ou seja, os que se delinearam a partir do período geológico denominado Cenozóico, o Cerrado é o mais antigo, o que significa que este ambiente já atingiu seu apogeu evolutivo - o que por sua vez conduz a uma outra situação. Um ambiente que atinge seu apogeu evolutivo e adaptativo, uma vez degradado, não se recupera jamais. Isto vale para a fauna, flora e água. A degradação é o processo irreversível.

A região do Cerrado já foi palco de um intenso povoamento indígena desde 11.000 anos Antes do Presente. Verdadeiras revoluções tecnológicas, experimentadas pelos ameríndios, foram realizadas na região do Cerrado. Algumas dessas inovações influenciaram decisivamente os hábitos não só dos brasileiros, mas da população mundial moderna. Muitas plantas medicinais do conhecimento indígena foram incorporadas na farmacopéia universal.

A população indígena atual que sobrevive em áreas intactas de Cerrado não representa 1% da população geral que outrora habitava a região. A grande maioria foi extinta em função de diversos fatores. O que restou representa muito mais uma continuidade biológica do que uma continuidade cultural.

O mesmo processo está acontecendo com as ditas populações tradicionais, engolidas pelo grande capital, devido á ausência do Estado nos seus territórios. Essas populações estão perdendo sua identidade, seus valores culturais, suas terras, abandonando seus modelos produtivos de agricultura familiar, migrando para os centros urbanos e engrossando as massas marginalizadas e periféricas desses centros.

Ao ler este texto o leitor deve estar indagando. Então temos de frear o desenvolvimento? Parar de crescer?

Não é bem isso, apenas devemos rever o desenvolvimento econômico atual, cujo modelo é predatório e excludente. Porque de nada adianta um "boom" produtivo efêmero se amanhã não tivermos água para sustentar o mínimo possível a vida em toda a sua biodiversidade. Passearemos pelas fábricas, silos e outros ambientes como se fossem ruínas de um tempo mal planejado.

Até o início dos anos 1970 falar de problemas ambientais, como desmatamento, garimpagem predatória, uso indiscriminado de agrotóxicos, assoreamento de rios, exploração desenfreada dos recursos naturais, poluição atmosférica, saneamento básico, emissão de CO2 na atmosfera, aquecimento global, enfim, falar de catástrofes naturais, ou provocadas pelo homem, constituía uma espécie de tabu, de tema proibido. Por quê? Porque para a grande maioria das pessoas o discurso ecológico não passava de uma rebeldia sem causa, ou seja, de um discurso sem fundamento científico, e muito menos político, cuja finalidade única era frear sem justificativa o desenvolvimento material da sociedade.

Os governos só tinham uma idéia fixa: promover a todo custo o desenvolvimento econômico do País e dos estados. Esta visão tecnicista para a maioria dos governantes e da gestão do território já deixava transparecer o que hoje chamamos genericamente de questão ambiental e que se tornou no problema preocupante não apenas para os brasileiros, em geral, mas para os goianos, em particular. Não há necessidade de se enumerar esses problemas, porque eles já afetam a todos os cidadãos, principalmente os das classes sociais menos privilegiadas assistidas. Há que se pensar em como resolvê-los, ou, no mínimo, em como evitá-los, a fim de minimizar os males que deles decorrem.

Na atualidade, os problemas relativos ao meio ambiente permeiam todas as questões concernentes à gestão do território estadual, principalmente as que dizem respeito à educação, de um modo geral, e ambiental, em particular. Desse modo, uma política ambiental verdadeiramente democrática tem que ter como preocupação central dois eixos fundamentais: a educação e a inserção social dos cidadãos pertencentes às classes sociais menos favorecidas. Uma coisa está ligada a outra, pois, sem educação - e aí se inclui a educação ambiental - não há inserção social, mas sim exclusão social.

Como dizem os especialistas, o maior objetivo da educação é criar capital humano de qualidade, dando aos indivíduos maior produtividade e flexibilidade. Vão mais além ainda, ao enfatizarem que as oportunidades de emprego, a produtividade da mão-de-obra, o uso de novas tecnologias, a distribuição de renda e até mesmo a qualidade de vida em uma sociedade dependem dos investimentos em educação.

Felizmente alguns abnegados da ciência brasileira propõem soluções concretas, que possam minimizar o desgaste atual, preservar os bens naturais e culturais e melhorar a qualidade de vida do homem do cerrado.

Solicitamos aos candidatos eleitos que ouçam a comunidade científica brasileira, antes de tomarem decisões administrativas pragmáticas. Quem sabe se esta atitude ajudará a deixar a miopia do efêmero e vislumbrar a perspectiva da eternidade.

Sabemos que a tarefa não é fácil, porém muito mais difícil será a vida no futuro, sem estas observações.

Se continuarmos com este modelo de não sustentabilidade do meio ambiente estaremos armando uma bomba relógio de efeito programado, que acelera o caminho para as covas dos nossos irmãos excluídos, e, certamente, retirarão dos livros as lições de humanidade.

Até quando teremos que contemplar apenas os "lobos" se saciarem?

(agosto/2006)

Teoria do Galo Dourado


Quando a ciência não consegue explicar determinados fenômenos ou fatos que circulam pelos campos da Filosofia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, Ciência Política etc., os "cientistas" costumam recorrer às hipóteses, as vezes mal formuladas, que aos poucos vão se tornando verdadeiras e se transformam em teorias.

Assim, diante do fato político de um dos candidatos à Presidência da República se encontrar muito à dianteira dos demais e considerando que durante seu mandato presidencial o candidato não foi coerente com os princípios que sempre nortearam os seus discursos, em virtude da ausência de explicações racionalizadas somos obrigados a recorrer à "Teoria do Galo Dourado", para explicarmos este fato que ora desenha o quadro político brasileiro.

Para compreendermos a citada teoria teremos que lançar mão de uma pequena história. Há alguns anos, um menino morador de uma pequena cidade do interior tinha como passa-tempo criar alguns galos-de-briga e colocá-los em constante competição no pequeno quintal da sua casa. Dentre os galos havia um, de pescoço comprido, penas reluzentes, esguio e valente, na realidade o "rei do terreiro..." Entretanto, é importante salientar que entre os galináceos existe um comportamento bastante peculiar que consiste no chamado "bicamento".

O galo mais valente tem o direito de bicar na cabeça do segundo mais valente, este, no terceiro e assim sucessivamente. Isto ocorre também entre as galinhas e frangos, estabelecendo uma hierarquia muito bem estruturada, hierarquia esta que, permite ao galo mais valente, quando chega a hora da distribuição da comida, expulsar os outros menos valente e saciar a apetitosa comida juntamente com o grupo, deixando a sobra para os demais.

Voltando à história do menino, um dia sua mãe compra na feira um belo galo preto, mestiço de tuso com hachura (raças asiáticas, especialistas em competições). Ao ser solto no quintal, o galo já foi avançando sobre os demais surrando todos eles. Quando o menino viu aquela cena, pensou consigo mesmo e exclamou: esse galo é o cão! Vai acabar batendo também no meu galo dourado. Antes que se concretizasse a batalha entre os dois galos, o menino peou o galo preto e o amarrou por uma das pernas numa tora de madeira, atiçando para cima do pobre galo seu preferido galo dourado, que surrou por demais o galo preto, deixando-o desorientado. Depois do acontecido, o menino soltou o galo preto, que já condicionado pela surra não mais enfrentou o galo dourado, que continuou sendo o dono do terreiro.

Deixando o terreiro dos galos, e voltando ao terreiro da política, somos obrigados a retornar ao tema inicial. Um governo que se elegeu apontando no horizonte a felicidade para todos e conseguiu transformar a metafísica em neurose, deixando claro que às vezes a essência da felicidade pode ser comprada com algumas mentiras baratas. Um governo que fez a esperança tornar-se num rio cujos ruídos de suas águas não escutam nossa sede; que introduziu os transgênicos no Brasil sem uma discussão correta, ética e honesta, com a sociedade brasileira; que apagou o Ministério do Meio Ambiente, transformando-o numa sombra do feroz Ministério da Integração Social, e que juntamente com este Ministério está sorrateiramente executando as obras para transposição do rio São Francisco, quando ele mesmo sabe que isto significa, a médio prazo, a morte do rio.

Um governo que salpicou de pequenas barragens os rios brasileiros, contrariando a legislação ambiental; que tampou os ouvidos para a ciência brasileira; que incentivou a proliferação das Faculdades pegue-pague; que degradou o meio ambiente com uma fúria nunca vista na história brasileira e ainda quer transformar o que resta de intacto numa grande plantação de mamona e num imensurável canavial, como se explica esta dianteira nas estatísticas da pesquisa?

Necessitaríamos de muita reflexão para tentarmos justificar as injustificáveis incoerências cometidas, e não conseguiríamos justificá-las. Portanto a única teoria plausível capaz de esclarecer no momento tal fenômeno é a "Teoria do Galo Dourado", que é explicada por uma das duas formas: ou o povo brasileiro gosta de levar bicadas na cabeça, ou de tanto levar bicadas o povo perdeu a memória.

(Publicado no jornal O POPULAR, de Goiânia, em 11 de setembro de 2006)

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Adeus, Nêgo D'Água



O fim do protesto de d. Luiz Cappio, explicitado através de um jejum de vários dias, associado à decisão do Supremo Tribunal Federal de ordenar a retomada das obras para a transposição do Rio São Francisco, funcionou como uma ducha de água fria, despejada em todos os movimentos que têm uma visão diferenciada da posição oficial sobre a transposição. E, apagou de vez a esperança quanto a capacidade de diálogo dos governantes.

Desde aquela época, quase nada se escreveu sobre o tema. Retomamos o assunto, para que fique registrado nos Anais da História da Humanidade, o fato de que nós pesquisadores coerentes com os princípios atuais do nosso conhecimento, não fomos omissos. E, enquanto os dados e raciocínio não apontarem em outra direção, jamais deixaremos de lutar contra este projeto erroneamente denominado pelos burocratas oficiais de Integração de Bacias.

O argumento até então utilizado, que fundamentou nossa posição, sempre foi baseado em dados científicos, levando em consideração a história da evolução geológica regional, o estado de degradação atual do Cerrado, bem como sua história evolutiva. O argumento de que agora faço uso se baseia na etnologia do imaginário das populações ribeirinhas do vale do São Francisco. Neste universo imaginário, em meio a símbolos e personagens, se destaca a figura do Nêgo D'Água.


Segundo a crença das populações ribeirinhas, habitantes do vale do São Francisco, este forte personagem atormenta seus sonhos, ataca os pescadores, viola lavadeiras desprevenidas, além da acometer outras tantas traquinagens. De acordo com os pescadores mais destemidos, nem as carrancas fincadas nas proas das embarcações conseguem assustá-lo, a única maneira de acalmá-lo, quando está disposto a parar as frágeis embarcações, é presenteá-lo com um bom pedaço de fumo de rolo. Daí a razão pela qual estes pescadores sempre carregam nas suas traias, tal tipo de material, para agradar o Nêgo D'Água enfurecido. Os pescadores ainda dizem que este estranho habitante do rio não gosta de ser chamado Nêgo D'Água e sim, Cumpade D'Água.


Cresci ouvindo estas histórias. Os ribeirinhos ainda contam que os Nêgos D'Água, ou melhor, Cumpades D'Água, vivem em bandos e habitam as locas que ficam escondidas nas barrancas do rio, vez por outra, saem da água para um banho de sol nos lajedos ou bancos de areia.


Sempre zombei da sua existência, porém diante da grande convicção dos ribeirinhos, minha descrença se assemelhava àquela descrença do ateu, que se apega aos santos antes de embarcar num avião.

Em épocas de grandes cheias do São Francisco, sempre corria até às suas margens, para certificar-me da existência destes personagens. Nunca os vi, e isto era motivo para povoar o meu imaginário de muitas zombarias, e acabava encharcado por um riso de criança vendo os estragos causados pelas corredeiras que arrastavam galhos, árvores, criações e outros elementos. Hoje, diante do panorama da transposição, nós pesquisadores temos elementos suficientes para prever que o leito do rio principal, bem como o de seus afluentes, vai minguar lentamente, expondo como conseqüência bancos de areia, acumulados pelo processo de assoreamento. Também antevemos expostos de forma assustadora, grandes barrancos ao longo do rio.


Se os Cumpades D'Água saírem das suas tocas para morrerem desidratados nos montes de areia, certamente terei a certeza de sua existência. Entretanto, no imaginário dos ribeirinhos eles são muito teimosos e, por esta razão, certamente morrerão alojados nas suas tocas. Aí, jamais saberei da sua existência.


De qualquer maneira o fato é muito triste, pois afeta o imaginário de milhares de pessoas, cujas conseqüências podem ir além da nossa imaginação. Aliás, a única certeza que nós estudiosos do assunto temos é de que a História, mais dia, menos dia, saberá julgar os autores da ação da transposição e os assassinos dos Cumpades.


Nesta perspectiva, retomo novamente o verbo na primeira pessoa do singular, para afirmar que dentro da minha simples e ao mesmo tempo complexa maneira de ver a vida, me remeto às zombarias e aos risos da minha infância, para pedir mil perdões aos Nêgos D'Água, pelo meu deboche. E eu que já ri tanto daquele rio, pelos bramidos de suas enchentes, daquele rio, eu não rio mais. Adeus!

Altair Sales Barbosa é professor titular do Instituto do Trópico Subúmido da UCG


PUBLICADO NO JORNAL "O POPULAR" DE GOIÂNIA EM 19/02/2008

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Quinhentas e Cinqüenta Gerações

O êmico e o ético de uma história que não acabou


Desde que as naus portuguesas chegaram em abril de 1500 ao litoral brasileiro numa enseada batizada com o nome de Bahia de Todos os Santos, cerca de vinte gerações se passaram. Naquela época, nossos ancestrais indígenas já estavam na região central do Brasil há pelo menos quinhentas e cinqüenta gerações. Isto significava que no oeste da América do Sul, América Central e América do Norte nós já estávamos há muito mais tempo.

Quando chegamos ao centro do Brasil uma sensação estranha tomou conta de nós: pensávamos que havíamos descoberto o paraíso, tal a opulência de recursos. O cerrado, com seus inúmeros rios de águas cristalinas repletos de peixes, com seus variados frutos comestíveis, com uma diversidade enorme de animais e ainda com inúmeros abrigos naturais, nos acolheu de forma tão carinhosa que nos coube retribuir esta acolhida com uma grande pitada de carinho cultural.

Chegamos neste ambiente como nômades, caçadores, pescadores e coletores da sobrevivências. Nossas moradias eram os abrigos naturais ou cavernas locais onde enterrávamos e venerávamos nossos mortos, fazíamos nossas cerimônias e deixamos mensagens gravadas e pintadas nas suas paredes. Mais tarde, com as diversas oportunidades que o ambiente nos oferecia aprendemos a domesticar alguns dos vegetais nativos e nos transformamos em horticultores; com isto, deixamos a moradia das cavernas e passamos a colonizar os verdejantes vales dessa terra, onde meus avós implantaram grandes aldeões. Mesmo vivendo em áreas abertas ou aldeias, nunca deixamos de visitar os abrigos naturais ou cavernas, nossas antigas moradas, pois sempre respeitamos e reverenciamos a memória dos nossos antepassados.

O futuro chegou mais rápido que imaginávamos, e o Brasil que se formou com sua ideologia economicista passou sobre nós como um rolo compressor. Fomos estereotipados na forma de vários preconceitos. Até o título de "preguiçoso" nos cunharam, simplesmente porque não aceitávamos o regime da escravidão. Segmentos da sociedade brasileira procuraram nos marginalizar de várias maneiras, incluindo o uso da força. E por isso, tivemos que nos refugiar nos rincões mais escondidos e inacessíveis do território brasileiro.

Entretanto, nossa cultura e identidade com a terra era tão forte que mesmo deixando somente os rastros, ficaram marcas profundas da nossa herança na cultura do povo brasileiro. E, se formos além das aparências veremos que não somente os brasileiros, mas muitos outros povos incorporaram no seu viver cotidiano elementos que os legamos.

Assim se deu com o feijão, por exemplo, tão apreciado como alimento desde o Brasil até o Texas; este vegetal é uma planta da família leguminosae, que foi domesticada por nós, da mesma forma que domesticamos o abacate, o abacaxi, o tomate, o pimentão, a pimenta, plantas estas que foram tão disseminadas pelo mundo que ficamos a imaginar: Como seria hoje a culinária da Malásia sem a pimenta?

Também domesticamos o tabaco. planta da família solanaceae e a usamos em rituais para amenizar nossas dores e situações de estresse, e que infelizmente afeta todo ser humano, da mesma forma que nossos irmãos do Altiplano Andino usavam a coca, para amenizar os efeitos da altitude e para evitar a labirintite causada pela escassez de oxigênio. A sociedade que se formou aproveitou essas plantas e deu a elas outras formas de uso.

Nossos antepassados mexicanos criaram o milho, cruzando dois tipos de gramíneas nativas. Este cereal irradiou com tamanha força e sucesso entre todos os nossos ancestrais das Américas que até a pamonha, que muitos afirmam ser comida típica de Goiás, já era conhecida por nós pelo menos há cinco mil anos. Hoje o milho movimenta parte da economia mundial.

Algumas de nossas bebidas, cremes e doces alcançaram também mercados mundiais, como o Guaraná, nossa bebida energética e refrescante, nossos cremes da palmeira Açaí, Patauá, Bacaba, Buriti etc., aos quais atribuíamos o nome de sembereba. O creme de Cupuaçu, as Castanhas do Pará, do Caju, do Baru, do Pequi, Amendoins etc., fazem parte de uma imensa listagem da nossa contribuição.

Um dos nossos cremes ficou tão famoso que o mundo até esquece que fomos nós que o criamos. Trata-se do creme da amêndoa do cacaueiro, planta nativa das nossas florestas equatoriais cujo doce hoje em dia é o mais apreciado da terra, e alguns ainda se atrevem a dizer que o melhor chocolate do mundo é o suíço. Quanta falta de conhecimento!

Ensinamos ao mundo a usar o látex da seringueira, planta nativa do ecótono Amazônia e Cerrado. Hoje esta matéria prima movimenta desde nossos corpos pelos solados de nossos sapatos, até caminhões e aviões pelos seus pneus.

Domesticamos batatas, inhames e mais de trezentas raças de mandioca, que hoje é alimento importante na vida de muita gente; ensinamos a consumi-la cozida ou assada e processá-la na forma de tapioca, polvilho, crueira, puba, beijus e dela fizemos o primeiro alimento desidratado da história da humanidade: a farinha.

Ensinamos aos novos colonizadores a consumirem muitas de nossas plantas nativas para saciarem a fome e curarem certas doenças. Assim, a sociedade aprendeu a consumir a Mangaba, o Caju, o Pequi etc., a beber o chá da Douradinha e da Congonha-do-Campo, e a curar a malária usando a entrecasca do Quinino.

Muitos outros segredos vegetais conseguimos ensinar ao novo colonizador que hoje os incorporou na farmacopéia universal. Entretanto, muitos ainda guardamos conosco, não por egoísmo, mas porque a sociedade que se formou à nossa volta nunca se importou em conhecê-los para benefício de toda humanidade. Alguns espertalhões conseguem esses conhecimentos para uso comercial e empresarial, na forma como a sociedade a designa de biopirataria.

E assim, através dessa breve narrativa passamos uma rápida visão de como foi a nossa trajetória nessa terra.

Hoje nossa situação é de penúria. Quem tanto deu pouco ou nada recebeu.

Criaram cidades, estradas, povoados e fazendas onde antes estavam nossa aldeias, tomaram nossas roças, violentaram nossas mulheres e nos deram de presente uma porção de doenças desconhecidas. Lagos imensos cobriram e soterraram nossos campos de caça e coleta. E, pior ainda, fizeram submergir para sempre nossas antigas moradias e os nossos locais sagrados onde enterrávamos e venerávamos a memória da nossa ancestralidade.

Hoje nos dedicam uma folhinha do calendário para comemorar a nossa lembrança.

Humildemente agradecemos, mas nunca se esqueçam que do altos dos edifícios construídos sobre nossas antigas aldeias e das cristas da serras às vezes não tão douradas, que circundam ou represam os antigos rios de água limpa, quinhentas e cinqüenta gerações lhes contemplam.

(abril de 2007)

A Amazônia voltará a ser deserto


A interpretação de alguns climatologistas de que a terra terá um aumento significativo na temperatura nos próximos anos é corretíssima. Isto acontecerá em virtude da decorrência do aumento global da temperatura provocado pelo efeito estufa. Além do aumento da temperatura, num primeiro momento, em alguns locais do planeta, várias outras modificações climáticas caracterizadas por outros fatores acontecerão nos próximos anos. Entretanto, torna-se necessário colocar ordem em muitas outras interpretações, principalmente naquelas que se referem à sucessão das paisagens. Isto porque muitas informações são confusas, contraditórias, e não levam em consideração a história evolutiva das paisagens mencionadas.

Recentemente, tem sido divulgadas informações de que o aumento gradual de temperatura na faixa tropical da terra provocará secas na região amazônica e esta se transformará num cerrado. A informação quanto ao clima é verdadeira, porém a informação referente a transformação da floresta úmida equatorial amazônica em cerrado é falsa. Seria até bom para o futuro do planeta se a floresta se transformasse em cerrado, pois esta paisagem vegetal, ecologicamente, é mais eficiente no que se refere ao seqüestro de carbono e poderia equilibrar ou mesmo amenizar com o tempo as conseqüências do efeito estufa. Mas não é isto o que acontecerá.

O aumento da temperatura na região amazônica e a diminuição da umidade provocarão lentamente a morte da floresta úmida e farão com que a Amazônia retorne a ser um grande deserto arenoso, como já aconteceu em sua história evolutiva recente, durante o Pleistoceno até início do Holoceno, ou seja de 2 milhões de anos até 11 mil anos Antes do Presente.

Na realidade uma gama de estudos em diversos campos da ciência, desde geologia, geomorfologia, climatologia, paleontologia, palinologia, botânica, zoologia, biogeografia etc. atesta que durante o último período glacial, denominado Wisconsin na América e Wiirm no Velho Mundo, notadamente a partir de 20 mil anos Antes do Presente, existia na Amazônia, principalmente nas chamadas terras baixas, um grande deserto arenoso denominado Deserto de Óbidos, que se unia a outro grande deserto situado mais para oeste e que abrangia todo o vale que hoje corresponde ao rio Orinoco.

Isto aconteceu porque houve uma diminuição da umidade na Amazônia, provocada pelas modificações das correntes aéreas, que dependiam das movimentações das correntes marinhas, que foram alteradas pela ação da glaciação citada.

Naquela época, em ilhas específicas situadas nos baixos Chapadões da Amazônia existiam manchas significativas de cerrado, conforme atestam os estudos de palinologia (ciência que estuda os pólens fósseis). Essas manchas eram prolongamento da grande área de cerrado já existente no centro da América do Sul que desapareceram numa época muito recente, em função do fenômeno da coalescência da floresta equatorial, provocada pela expansão das áreas florestadas por causa das mudanças climáticas e de solo, decorrentes do final do período glacial.

A floresta amazônica, tal qual como a conhecemos atualmente, é um fenômeno recentíssimo dentro da história da terra e só foi viável em função principalmente das condições edáficas (solos). Neste sentido, os pesquisadores da pedologia (ciência que estuda os solos) relatam que a maior parte dos solos hoje existentes na área do Bioma Amazônico é incompatível com uma longa estabilidade da floresta, por serem solos muito jovens, com alta taxa de reposição, dotados de características especiais, indicando ausência de vegetação, ou vegetação muito rala num passado não tão distante.

Por outro lado, o cerrado é um tipo de ambiente muito antigo que já atingiu seu apogeu evolutivo, composto por formas vegetacionais associadas a modelos específicos de solo e umidade, cuja adaptação exigiu um longo período de tempo calculado em milhões de anos. É um ambiente em que qualquer tipo de desequilibro provocado na sua estrutura, poderá promover sua extinção. Por isto é que se afirma: que um cerrado degradado jamais voltará a ser cerrado.

A vegetação do cerrado não é xerófita, logo estará na dependência de um clima subúmido: a condição climática que determina o cerrado é a mesma responsável pelo aparecimento de manchas de florestas. Uma vez satisfeita a condição climática, o cerrado aparecerá, ou não, na dependência de fatores edáficos, de ordem nutricional; as diferenças de regime hídrico e térmico em certos limites não implicam em modificações sensíveis na fisionomia do cerrado.

Folhas enormes, que muitas plantas de cerrado apresentam, ausência de sinais de murchamento, mesmo no auge da seca, floração e brotação abundantes antes das chuvas, contradizem a noção geral de que a existência do cerrado seja devido a escassez de água. Vários estudos de fisiologia e morfologia botânica sobre plantas do cerrado atestam esta afirmação, e, somente a título de ilustração, citamos os autores Rawitscher, Rachid e Ferri.

Estes estudos destacam a grande profundidade dos solos do cerrado; abundância de água nesses solos; profundidade considerável dos sistemas radiculares das plantas do cerrado; presença freqüente de estruturas xeromorfas na vegetação do cerrado, como estômatos em depressões, epidermes revestidas por cutículas espessas e camadas cuticulares ou recobertas por numerosos pêlos ou escamas, presença de hipoderme e parênquimas incolores, células pétreas e esclerênquimas bem desenvolvidas etc. Todos esses elementos são, habitualmente, correlacionados com condições xéricas. E, no entanto, o estudo do comportamento da vegetação do cerrado não indica uma associação a tais condições que na verdade não existem.

A grande maioria das plantas do cerrado transpiram livremente e com altos valores, mesmo nos períodos de secas mais pronunciadas. As plantas do cerrado mostram, quase sem exceção, estômatos abertos durante todo o dia, mesmo durante a seca. Também é comum encontrá-los abertos a noite.

Em geral, as reações estomáticas das plantas do cerrado são lentas. O fechamento total das fendas estomáticas, quando se faz cessar o suprimento hídrico arrancando a folha da planta, pode consumar em uma hora ou mais e, às vezes, nunca se completa inteiramente. A transpiração cuticular é freqüentemente muito elevada, embora as cutículas e as camadas cuticulares sejam espessas. Os déficits de satisfação das folhas são baixas, em geral, mesmo em época seca. O valor mais alto encontrado é da ordem de 5% do conteúdo máximo de água.

Em contraste, por exemplo, com as plantas da caatinga, do trópico semi-árido, em cujo ambiente tanto árvores como arbustos têm reações estomáticas muito rápidas, reduzindo mais de 50% do valor inicial de sua transpiração em apenas dois minutos após cessar o suprimento de água e completa o fechamento estomático em cinco minutos.

Estes poucos dados apresentados demonstram a complexidade dos processos adaptativos pelos quais passaram o cerrado. Processos estes que exigiriam longos períodos de tempo geológico calculados em milhões de anos.

Portanto, para que uma floresta equatorial, semelhante a Amazônica, com a história evolutiva que tem, possa se transformar em cerrado, seriam necessários alguns milhões de anos para que se criassem algumas condições vitais; tais como: clima subúmido de temperatura amena e com significativa amplitude térmica entre o dia e a noite; tipos específicos de solo. Se fossem originadas estas condições, que não são fáceis de serem concretizadas, porque nem sempre existe a rocha matriz e suas interações milenares, para a formação dos solos (somente para citar um exemplo), possivelmente poderia ocorrer a migração de algumas espécies de plantas de cerrado para a nova área que seria formada.

Uma área de cerrado degradada jamais tornará a vir a ser cerrado com toda sua biodiversidade. Alterando as condições de solo para melhor, através de correções até uma floresta pode-se criar no local, cerrado nunca mais. A primeira vista este novo ambiente vistoso parece ser até mais encantador, mas se penetrarmos além das aparências perceberemos que ecologicamente o prejuízo será enorme e irreversível. A começar pela recarga dos aqüíferos que não será mais a mesma, em função do complexo sistema radicular que caracteriza as plantas do cerrado e que retém cerca de 70% das águas das chuvas. O seqüestro de carbono da atmosfera, também será afetado.

Portanto, se os efeitos globais de mudança ambiental caminharem no sentido que apontam os estudos climatológicos, é bem provável que as antigas dunas de areias depositadas na Amazônia durante o Pleistoceno voltem a ficar expostas sem a vegetação, que morreu pelo aumento da temperatura e pela falta de umidade.

Se não forem tomadas medidas radicais, provavelmente ainda na nossa geração poderemos presenciar ao vivo a ressurreição do deserto de Óbidos e outras paisagens de capítulos antigos da história da Terra. Isto, se a humanidade conseguir sobreviver.

(março/2007)

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Bom para o Brasil, ruim para os brasileiros, péssimo para o Planeta



Por que será que a mesma grande imprensa nacional que tem acompanhado os inúmeros Fóruns Internacionais sobre o efeito estufa e as mudanças globais do clima anuncia com alarde, sem senso crítico e, às vezes, até com alegria a possibilidade do Brasil se tornar o eixo central produtor e exportador de etanol?


Será que não são percebidas as relações existentes entre as grandes monoculturas, despontadas a partir de 1970, e a grave situação ambiental atual?

O etanol, também chamado por alguns de combustível limpo, não é tão limpo assim. Se comparado aos combustíveis fósseis, é claro que a emissão na atmosfera de dióxido e monóxido de carbono por este combustível é menor. Entretanto, devem ser analisados todos passos e conseqüências para sua produção.

O primeiro passo para sua produção é a plantação da cana, fato que exige grandes áreas desmatadas, solos arados e de alta fertilidade natural. Quando os solos não apresentam a fertilidade necessária, faz-se a correção com adubos e calcários em alta escala, modificando os padrões originais do local e provocando os primeiros indícios de contaminação dos lençóis subterrâneos e cursos d'águas superficiais.

O segundo passo é a irrigação executada por grandes aspersores, que são alimentados por volumes imensos de água sugada dos cursos d'água próximos.

A retirada da cobertura vegetal natural provoca, na região do Bioma Cerrado, a diminuição da infiltração das águas das chuvas, fato que, a curto prazo, faz secar o lençol freático e, a médio prazo, provoca o mesmo fenômeno no lençol artesiano.

Todo tipo de monocultura, e a cana é a pior delas, provoca a extinção da biodiversidade, eliminando de forma acelerada diversas espécies de animais. Além disso, como conseqüência dos herbicidas, são dizimadas do local as chamadas plantas daninhas (algumas com grande potencial farmacológico).

O uso dos herbicidas, adubos e calcário provoca a morte dos micro-nutrientes do solo, contamina os lençóis subterrâneos e os cursos d'água superficiais.

A colheita da cana pode ser efetuada de duas maneiras: manualmente e mecanizada. A colheita manual socialmente cria a figura do bóia-fria. Antes do corte, atea-se fogo nas palhas secas, cujas plantações se espalham por milhares de hectares, aumentando a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e exterminando os micro nutrientes do solo, criando um ciclo perigoso de saturação.

A colheita mecanizada dispensa grande quantidade de mão-de-obra, gerando o êxodo rural e todas as conseqüências que conhecemos.

Após o corte, a cana é transportada para as usinas, a fim de ser processada. O transporte é feito em caminhões com três lances de carrocerias, que recebem a denominação de treminhões. Na época do transporte, quem já teve a oportunidade de verificar o tráfego desses treminhões nas rodovias é consciente do perigo que eles causam.

Uma usina de médio e grande porte para moagem da cana consome alto teor de energia, que pode ser a vapor e elétrica.

No caso das usinas a vapor são necessárias centenas de toneladas de carvão. Fato que aumenta a demanda do desmatamento e multiplicação das carvoarias, pois não há florestas artificiais plantadas para esta finalidade que atendam a demanda. E, quando há, estas florestas geralmente de eucalipto foram plantadas nas áreas onde outrora existia a vegetação nativa. As perdas ambientais são enormes, pois há mais emissões de dióxido e monóxido de carbono na atmosfera e a perda da biodiversidade se torna irreversível, com a extinção de várias espécies de animais adaptadas à vegetação nativa e que, sem território, aos poucos vão desaparecendo da superfície da terra.

No caso das usinas elétricas o consumo de energia é tão grande que é necessária a instalação de sub-estações nas suas proximidades. Com o aumento da produtividade para atender o grande mercado mundial, a necessidade da produção de energia aumentará, o que exigirá uma crescente entropia no sistema hidrográfico brasileiro.

Os subprodutos

Dentre alguns dos sub-produtos da cana estão o bagaço e a vinhaça.

O bagaço atualmente é aproveitado de várias formas: entra na composição do fabrico de alimentos para animais e, quando seco, serve para produção de energia a vapor.

A vinhaça ou vinhoto é um sub-produto com alto grau de fermentação. Até pouco tempo não se conhecia tecnologia para seu aproveitamento e era jogada diretamente nos cursos d'água, poluindo estes e contribuindo para o extermínio da vida nos córregos e rios.

Atualmente, este sub-produto é processado através da diluição e conduzido por canais a céu aberto ou canalizado para uma central de bombeamento, que o dispersa entre as plantações para aumentar a fertilidade do solo. É uma substância corrosiva e não há estudos do seu impacto sobre os diversos tipos de fauna. Outros estudos, entretanto, demonstram que a biodegradação da vinhaça depositada nos canais e tanques após a fertilização libera odores desagradáveis, causando incômodo à população do entorno. Os gases liberados durante a decomposição são prejudiciais à saúde, principalmente amônia, sulfeto e marcaptanas, que também são formados a partir da presença do enxofre no meio.

Atualmente o volume gerado de vinhaça é muito maior que a demanda de aplicação no solo. Neste sentido, as áreas fertilizadas não aproveitam o total de vinhaça gerada e o excedente se torna um problema para o tratamento e disposição final.

De acordo com estudos de CHERNICHARO (1997), a digestão anaeróbica da vinhaça pode ser considerada como um ecossistema onde diversos grupos de microorganismos trabalham interativamente na conversão da matéria orgânica complexa em metano, gás carbônico, água, gás sulfúrico e amônia, além de novas células bacterianas.

De acordo com outros autores como ATSDR, (2002); MITCHEL (2002), os problemas de saúde decorrentes da exposição aos odores liberados em relação ao mercaptano de metilo é que sua inalação está associada a problemas neurológicos e de morte, embora não exista informação sobre os limites de concentrações e suas conseqüências para a saúde.

Além disso, a vinhaça, após sua aplicação na lavoura, permanece nos tanques, nos canais principais e secundários, em processo de decomposição, promovendo a proliferação de vetores de doenças.

O mito da geração de empregos
Todo grande empreendimento econômico, principalmente aqueles que degradam o meio ambiente, se apóia numa justificativa de que grandes oportunidades de emprego surgirão e a qualidade de vida das populações aumentará. Desde 1970, quando as grandes monoculturas foram implantadas no Brasil, este fator não aconteceu. O que temos hoje é um quadro desolador. As populações migraram para as grandes cidades, aumentando a miséria na periferia destas, a pobreza aumentou e não há plano diretor, planejamento ou governante que consiga apresentar uma solução plausível, pois quando se pensa que um problema foi resolvido, outros tantos surgem, em decorrência do "modelo econômico" concentrador que empurra as populações para as áreas urbanas.

Em termos ambientais herdamos a possibilidade de vivermos um futuro incerto com os rios secos e água potável cada vez mais difícil e cara. A derrubada em larga escala da vegetação nativa tem demonstrado que os gases cósmicos provenientes do Sol se concentram na atmosfera baixa da terra, aumentando o efeito estufa e o aquecimento global, cujas conseqüências, como inversão climática, aparecimento de furacões onde não existiram desde o início do Holoceno e tantas outras, são algumas que resultam desses tipos de grandes empreendimentos, que são protótipos do agronegócio predatório.

A grande expectativa da geração de emprego criada por empresários e governo não passou de um mito, cuja concentração de população no entorno da área produtiva gerou povoados e cidades mal planejadas, criou bolsões de miséria e aumentou em muito a prostituição infantil e a criminalidade.

Para manter este mito, os que lucram com a riqueza gerada pelo modelo manipulam estatísticas e fatos para iludir o povo.

Portanto, aqueles entusiastas pelo incremento da produção do etanol, atraídos pela possibilidade de altos investimentos de empresários e banqueiros internacionais, deveriam estudar um pouco mais a realidade brasileira, antes de saírem por ai afirmando em seus discursos que o Brasil tem a maior fronteira agrícola, tem sol em abundância, tem água e tecnologia avançada, deveriam perceber que hoje vivemos o ano de 2007 e não mais na época de Dom Pedro II.

Os fatores ambientais neste início de século XXI já chegaram no limiar da sustentabilidade.

(abril de 2007)

Cerrado: a dor fantasma



Para efetuar uma avaliação correta do nível de degradação em que se encontra o Sistema Biogeográfico do Cerrado é necessário que se tenha em mente um conceito correto do que é cerrado, da sua história evolutiva e de todos os seus componentes básicos.

Se tomarmos, como exemplo, somente a cobertura vegetal como parâmetro, para medir a degradação, incorre-se em dois erros básicos: o primeiro é eleger uma determinada fisionomia vegetal como guia e não considerar a diversidade de paisagens que compõe o cerrado em sua plenitude. O segundo é utilizar, sem os devidos cuidados, o sensoriamento remoto, pois não se trata de um método seguro para medir a degradação vegetal, porque é incapaz de diferenciar espécies nativas de vários tipos vegetacionais exóticos.

Isto ocorre com freqüência quando em grandes áreas, onde outrora existiam monoculturas, que foram abandonadas e agora surge uma vegetação sub-arbórea homogênea, estranha e que não tem nenhuma relação com a vegetação de cerrado. Nas imagens de satélite, entretanto, os menos avisados interpretam como áreas com vegetação intacta, quando na realidade são invasoras exóticas. A análise global deve abranger os componentes da fauna, os aqüíferos e as populações humanas, dentre outros elementos.

O Cerrado é um Sistema Biogeográfico, composto por diversos subsistemas intimamente inter-atuantes e inter-dependentes. Cada sub-sistema tem uma história ocupacional que consequentemente reflete seu nível de degradação. Estes subsistemas flutuam de um gradiente aberto com claridade para gradientes sombreados.

As matas
O subsistema coberto pelas matas é uma área florestada que não pode ser confundida nem com a Floresta Amazônica, nem com a Mata Atlântica, porque se trata de florestas subúmidas, com uma história evolutiva totalmente diferenciada dessas florestas. Estas matas ocorrem no Sistema do Cerrado em função de manchas de solo de alta fertilidade natural - são as chamadas terras de cultura e justamente por esta razão foram as mais cobiçadas desde o início da ocupação humana.

As primeiras grandes fazendas, as primeiras grandes lavouras, foram implantadas nestas áreas, que hoje abrigam também as maiores cidades do cerrado. O nível de degradação dessas áreas é tão grande que o que resta não chega a 2% de sua área original, levando-se em consideração não as plantas isoladas, mas as comunidades e populações de vegetais.

Os campos
Na outra extremidade do gradiente estão os campos, que ocupam os chapadões. Estes foram intensamente ocupados para produção de grãos, a partir da década de 70, de forma tão intensa que praticamente criou-se uma situação que hoje nos permite afirmar que esta paisagem, em termos de população vegetal, não mais existe.

Considerando neste contexto as Unidades de Conservação, situadas em áreas onde originariamente eram campos, estas estão altamente descaracterizadas por manejos inadequados.

O cerradão
Outro subsistema integrante do Sistema do Cerrado é o Cerradão, formação vegetacional associada a solos bem especiais, como é o caso do sudoeste goiano, em que esta associação se dá com solos do arenito Bauru.

Desafiamos a qualquer pesquisador, conhecedor do cerrado, a nos mostrar hoje em dia uma população intacta de cerradão. Isto significa afirmar que seu nível de preservação beira a casa do 0%.

O Cerrado propriamente dito
Por ocupar solos oligotróficos, cuja correção é muito dispendiosa, este subsistema, de árvores pequenas e tortuosas, paisagem dominante que deu nome ao Sistema como um todo, foi até bem pouco tempo desprezado pela agricultura e pecuária.

No entanto, seu carvão, de alta qualidade, despertou a gula dos gananciosos, que usaram e usam correntões para seu desmatamento, em pseudos projetos aprovados pelo IBAMA, como Projetos de Manejo Florestal.

O carvão é utilizado cada vez mais intensamente na siderurgia. Em função disto, as populações de cerrado stricto sensu, como este subsistema é também conhecido, não ultrapassa a casa dos 5% de preservação, em relação às formações originais.

Veredas, ambientes ciliares, várzeas
Estes outros sub-sistemas, com diversos tipos de fácies, não fogem à regra comum da degradação . São ambientes importantíssimos para a ecologia do cerrado como um todo, pois constituem a maternidade da fauna do cerrado, incluindo não só os peixes, mas também mamíferos, répteis e aves.

Os ambientes ciliares há muito vem sofrendo um grande processo de erosão provocado pelas ocupações desordenadas e grandes projetos agrícolas, tipo Pró-Várzea, Projeto Rio Formoso e outros similares.

As veredas, ambientes importantíssimos para a manutenção das águas superficiais, vêm paulatinamente sofrendo grande processo de morte lenta, em função da diminuição do nível das águas dos mananciais. Apesar de tudo, ainda é sste o ambiente mais preservado em todo sistema, atingindo o nível de 16% em relação às áreas originais.

Fauna

O entendimento sobre os aspectos ambientais do Cerrado exige uma análise integrada entre os elementos da fauna, da flora, do espaço geográfico e como eles se relacionam com os demais componentes. Acredita-se que a grande biodiversidade de fauna do Cerrado está vinculada à diversidade de ambientes. Esta correlação permite vislumbrar o ambiente na sua totalidade, o que facilita o estabelecimento adequado de políticas ambientais para a região.

Geograficamente, a região dos cerrados situa-se em um local estratégico entre os domínios brasileiros, o que facilita o intercâmbio florístico e faunístico. Representado no centro do País, a sua área estende-se de um extremo ao outro, do Mato Grosso do Sul ao Piauí, em seu eixo maior, e limita-se, para oeste, com a Floresta Amazônica, para o leste e nordeste, com a vegetação da Caatinga, sendo acompanhada ao sul e sudeste pela Floresta Atlântica. Essas ligações favoreceram o delineamento de corredores de migração importantes, tanto por via terrestre quanto aquática.

Algumas espécies animais do Cerrado são limitadas a determinados tipos de habitat. Os espaços são bem definidos de acordo com a necessidade biológica de cada espécie. Esse condicionamento ao ambiente pode ser explicado pelo determinismo ambiental, imposto pela natureza através de recursos alimentícios, que condicionaram os animais especialistas a viverem em determinadas áreas em função do hábito alimentar. Um exemplo conhecido é o da espécie Myrmecophaga tridactyla (tamanduá-bandeira), que se alimenta basicamente de cupins terrestres e formigas, abundantes em campos abertos.

Para a região do cerrado são apontados para a avifauna 935 espécies que ocorrem em todo o sistema, distribuídas em diferentes habitat por todo o cerrado. Quanto aos mamíferos, foram listadas 298 espécies para os cerrados e 268 espécies de répteis.

A maturação dos frutos e a rebrota das gramíneas, fonte principal de alimento de um grande contingente de fauna, não ocorrem de forma homogênea em todas as áreas de cerrado. A grande frutificação acontece durante os meses de novembro, dezembro e janeiro, época que coincide com o auge da estação chuvosa.

A concentração desses recursos diminui, acompanhando o fim do período chuvoso. Entretanto, com exceção dos meses de maio e junho, considerados críticos no que se refere à oferta de alimentos, os demais meses, que correspondem à época seca, mesmo em menor quantidade, apresentam alguns recursos, entre eles flores, raízes, resinas e alguns frutos.

Os mamíferos dos cerrados podem ser observados durante todo o ano, principalmente os que vivem em áreas abertas. Todavia, a maior concentração dessas espécies em seus nichos alimentares se dá nos meses de setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro. Esta época coincide com a rebrota das gramíneas que, geralmente durante a estação, secam por ação natural ou antrópica, sofrem a ação do fogo e coincide também com a maturação dos frutos. Neste mesmo período acontece a revoada de insetos (mariposas e tanajuras), o que torna fartos os recursos para os mamíferos insetívoros.

Grande parte desses animais estão se acasalando durante os meses correspondentes à estação seca. Isso significa que no período chuvoso vão estar com filhotes. Essa dinâmica da natureza revela a estreita relação entre a flora e a fauna dos cerrados.

Infelizmente, a cada ano que passa, aumenta a lista dos animais ameaçados de extinção total. A natureza dotou esta região de certos mecanismos naturais que garantem a multiplicação e a propagação das espécies. Existe uma estreita interdependência entre a fauna e a flora. O fator biodiversidade animal está diretamente relacionado à diversidade de ambientes. Estes, por sua vez, relacionam-se à variedade de espécies vegetais que se multiplicam sob a influência de fatores litológicos, edáficos e climáticos, de ordem regional e local.

Infelizmente, a falta de uma política séria para o meio ambiente tem colocado em risco todo o patrimônio natural dessa região, marcada por processos intensos de ocupação desordenada dos espaços. A política desenvolvimentista aplicada no Brasil, principalmente no cerrado, que é considerado a última grande fronteira para a produção de grãos, tem levado muitas espécies da fauna à extinção e consequentemente alguns exemplares da flora, em função da sua interdependência.

Muitos animais da Megafauna (fauna gigante) já foram extintos dentro de um processo lento e natural, imposto pela evolução da natureza. Os animais modernos estão se extinguindo ou em vias de extinção, dentro de uma dinâmica proporcionada pela ação humana, muitas dessas espécies não alcançaram nem alcançarão o seu clímax evolutivo, pois a velocidade dos processos de degradação, supera em milhares de anos os fenômenos naturais.

Ocupação humana

A diversidade de ambiente empresta à biodiversidade do cerrado um caráter peculiar e seus aspectos evolutivos fizeram com que processos culturais diferenciados também ocorram de forma "sui generis", transformando a região do cerrado numa espécie de fronteira cultural.

Na realidade alguns dos mais importantes processos culturais americanos nasceram no cerrado, como a formação do tronco lingüístico Macro-Jê, a domesticação e disseminação de certos tubérculos e outros vegetais e o desenvolvimento de tecnologia de caça, pesca e processamento de recursos vegetais nativos e cultígenos.

O estudo detalhado de diversas comunidades indígenas habitantes do cerrado demonstra que essas populações aprenderam sabiamente a desenvolver mecanismos adaptativos e planejamento ambiental e social que fossem capaz de lhe permitir uma vida em abundância. Assim são os Kayapó, que habitam as áreas mais elevadas, os Karajá, específicos da calha do Araguaia, os Xavante etc.

Todos estes fatores reunidos fazem com que o cerrado seja um laboratório antropológico único, no qual se deve olhar e aprender para, com sabedoria, saber planejar o futuro.

A população indígena que povoou o cerrado não produziu qualquer modificação brusca no equilíbrio do ecossistema, porque inicialmente os homens eram poucos e o nicho adaptativo era amplo.

Até que a população humana crescesse a ponto do seu tamanho ser prejudicial, coube à seleção natural levar a termo uma adaptação primorosamente equilibrada aos recursos ambientais.

A chegada dos exploradores de origem européia, trouxe conseqüências bem diversas, por duas razões:

-1a A principal finalidade não era o povoamento e sim a exploração comercial.

-2a Mantiveram um contato íntimo, ou com a mãe pátria ou com um poder central deslocado, a quem competia ditar as mercadorias a serem fornecidas e o seu preço.

Portanto, pela primeira vez em sua longa história a região do Cerrado ficou sob a influência contínua de um agente que era alienígena ou exótico, às vezes, como no princípio até extracontinental e consequentemente imune às forças modeladoras da seleção natural local.

No início a devastação foi mínima, mas com o passar dos tempos os sinais destas já eram bastante visíveis. O aumento da imigração acelerou cada vez mais o processo de degradação. Surgiram epidemias novas, que contribuíram para dizimar populações indígenas, como a gripe, o sarampo, a varíola e tal qual como aconteceu em outras áreas do País a entrada de escravos africanos introduziu a malária e a febre amarela.

O crescimento demográfico também é algo surpreendente, principalmente de 1950 para cá, e é bem provável que, no ano 2010, a região do cerrado tenha uma população tão grande que escape às políticas de planejamento. Esta perspectiva é aterradora, tendo em vista a magnitude da degradação que já ocorreu com uma densidade demográfica bem menor.

A partir da década de 50, implanta-se no Brasil um modelo econômico chamado desenvolvimentalista, onde a meta é atingir o desenvolvimento a todo custo.

Essa política que, no início, é executada de forma até ingênua, com os governos militares de 1964 em diante adquire um caráter ideológico e a partir desse momento o hemisfério começa a presenciar uma grande revolução, não uma revolução do homem e para o homem, mas uma revolução de desrespeito à vida humana e à vida do ambiente.

Dentro dessa perspectiva o cerrado é recortado por inúmeras estradas, rios são represados, montanhas aplainadas, vegetação derrubada, animais são ameaçados de extinção, pequenas comunidades são desestruturadas num ritmo nunca visto na história da civilização.

Ambiciosos projetos de colonização, sem o mínimo de planejamento e conhecimento, com objetivos puramente políticos, são postos em execução.

Fatos recentes, ainda vivos na nossa memória, atestam a pujança que este modelo desenvolvimentista tem, como a ocupação dos chamados Chapadões por capital alienígena para projetos de reflorestamento com espécies estranhas ao meio ambiente do cerrado, para produção maciça e efêmera de grãos para exportação. A criação do Estado do Tocantins pode ser citada como outro exemplo, as especulações para a implantação da Hidrovia do Araguaia e tantos outros exemplos, que podem ser listados, demonstram a força dessa ideologia.

Assim é que, ao se entrar no início do século XXI, encontra-se em suspenso o destino do cerrado. Se as próximas décadas trarão sua ruína ou salvação ainda não se pode dizer.

Os aqüíferos

Outro elemento importante que deve ser considerado como conseqüência da degradação do cerrado se refere aos aquíferos.

O cerrado é a cumeeira da América do Sul, distribuindo águas para as grandes bacias hidrográficas do continente. Isto ocorre porque na área de abrangência do Cerrado se situam três grandes aquíferos, responsáveis pela formação e alimentação dos grandes rios do continente: o aquífero Guarani, associado ao arenito Botucatu e a outras formações areníticas, mais antigas, responsáveis pelas águas que alimentam a bacia do Paraná. Os aquíferos Bambuí e Urucuia.

O primeiro associado às formações geológicas do Grupo Bambui e o segundo associado à Formação arenítica Urucuia, que em muitos locais está sobreposto ao Bambuí e em certos locais há até o encontro dos dois aquíferos, apesar de existir entre os dois uma grande diferença de idade. Os aquíferos Bambuí e Urucuia são responsáveis pela formação e alimentação dos rios que integram as bacias do São Francisco, Tocantins, Araguaia e outras, situadas na abrangência do Cerrado.

Estes aquíferos, que se vem formando durante milhões de anos, de pouco tempo para cá não estão sendo recarregados como deveriam, para sustentar os mananciais. Isto ocorre porque a recarga dos aquíferos se dá pelas suas bordas nas áreas planas, onde a água pluvial infiltra e é absorvida cerca de 60% pelo sistema radicular da vegetação nativa, alimentando num primeiro momento o lençol freático e lentamente vai abastecendo e se armazenando nos lençóis mais subterrâneos.

Com a ocupação dos chapadões de forma intensa, que trouxe como conseqüência a retirada da cobertura vegetal, sua substituição por vegetações temporárias de raiz subsuperficial, a água da chuva precipita, porém não infiltra o suficiente para reabastecer os aquíferos. Conseqüência, com o passar dos tempos, estes vão diminuindo de nível, provocando, num primeiro momento, a migração das nascentes, das partes mais altas, para as mais baixas e a diminuição do volume das águas, até chegar o ponto do desaparecimento total do curso d'água. Convém ressaltar que este é um processo irreversível.

A dor fantasma
Por estas razões, a situação do Cerrado hoje em dia se assemelha ao fenômeno conhecido em Neurologia como dor fantasma.

As pessoas que são vítimas deste mal sofrem um duplo infortúnio. Estas pessoas perderam uma extremidade ou parte dela. E sofrem dores às vezes muito intensas que sentem como provenientes do membro que já não tem mais. As discussões sobre o Cerrado se assemelham a esta situação, porque estamos sentindo as dores da perda de um ambiente, que não existe mais na plenitude de sua biodiversidade.

Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Carta aberta aos que amam o Ato de Educar



Imbuídos dos conceitos errôneos de globalização, querem transformar o intelectual em um simples divulgador generalista de nível superior. O Ministério da Educação promove esta situação através da autorização indiscriminada para abertura de inúmeras escolinhas de 3º grau, talvez embasado na ideologia mesquinha e demagógica de que quanto mais pessoas de nível superior o Brasil possuir, melhor desempenho terá nas estatísticas oficiais, não importando, porém, a qualidade dos que foram quantificados.

Essa simplificação trai o princípio básico da educação que é a conscientização, e, em nome da banalização cria-se uma enorme massa alienada, talvez de grande utilidade para as ideologias que não se enternecem em proporcionar campo propício à eclosão de pensamentos originais e que não deixam margens para outros pensamentos.

Diante de tal quadro, as tradicionais Instituições de Ensino Superior (IES), talvez amesquinhadas pela falta de coragem, de criatividade e competência de seus dirigentes, se sentem perdidas e ofuscadas por tamanha confusão e burocracia.

E assim, diante desse quadro confuso e por incapacidade de seus dirigentes de se libertarem da camisa-de-força que lhes é imposta pelo MEC, desviam para canais rasos e poluídos os antigos caminhos dos ramos de conhecimento que outrora se entrecruzavam com freqüência e formavam afluentes que desaguavam em rios que transportavam sabedoria, ética, lógica, ciências, sonhos, lutas.

Entretanto, mesmo diante dessa situação, conscientes ou inconscientes, os dirigentes aceitam como verdadeira uma cosmovisão deturpada e se arvoram em ser o Deus Criador, para provocarem um big-bang e implodirem o indivisível universo ensino-pesquisa-extensão. Uma vez implodido este universo, abre-se a possibilidade de conduzirem as IES pelo canal que denominam ensino, mas que em realidade é puro aulismo.

Dessa forma, inconscientes ou não, estão contribuindo para a formação de profissionais incapazes de resolver científica e humanisticamente os problemas propostos pela velocidade das mudanças atuais, e se sentem livres para praticar a divulgação de conhecimentos de péssima qualidade, gerando entre os discentes e docentes uma massa informe de descontentes e alienados.

Nas tradicionais instituições privadas o perigo pode ser bem maior. A iminência da falência administrativa, por falta de uma visão global, poderá levar os administradores a implantarem como única saída a política do terrorismo do medo pelo medo, onde a fúria estarrecedora gerada pela falta de capacidade da busca de alternativas e planejamento adequado, romperia de vez com o universo ensino-pesquisa-extensão, inclusive fragmentando a dimensão ensino e reduzindo-a a mera divulgação. Assim os poderes seriam consolidados em detrimento da grande maioria sem voz e direitos. Essa maioria ficaria impedida de optar, lucidamente dopada pelo que lhe é imposto. Com isso, vai-se perdendo a capacidade de projetar um futuro melhor e cada vez mais desaparece no horizonte a possibilidade da criação e incentivo aos núcleos de pesquisa fundamental ou aplicada, que possam responder às necessidades urgentes da humanidade e da vida.

O reducionismo da atividade de ensino em simples divulgação banal está aniquilando tanto nas universidades públicas tradicionais como nas universidades privadas tradicionais, suas ilhas de excelência, ou, em outras palavras, o que elas têm de melhor: seus centros ou institutos de criação e integração. Sem estes, os esforços institucionais para a busca do bem-estar social cairão no vazio e não poderão adquirir a sua total plenitude.

Nós que fomos formados nos autênticos valores do cristianismo, ficamos sem entender esta crescente situação desumana que aos poucos vai conduzindo as pessoas ao suicídio por omissão. Isso porque esta situação é capaz de criar no universo da Universidade uma solidão interior e um individualismo generalizado, práticas antagônicas aos princípios do cristianismo.

Estamos presenciando uma divisão entre inteligência, razão e emoção. O preço pago pelos que querem lutar contra essa situação pode ser a esquizofrenia, causada pela impotência das mobilizações. Tudo isso gera uma profunda mutação no nosso cotidiano e no nosso relacionamento: vamos paulatinamente abandonando a ética da cooperação e substituindo-a pela competição desleal.

O corpo universitário, constituído por alunos, professores, funcionários, quando isolado individualmente e responsável por si só, vê a própria vida e a morte perderem seu sentido comunitário.

Neste momento de indefinições perigosas, antes de qualquer decisão, seria útil que os dirigentes das Instituições de Ensino Superior soubessem cultivar a humildade e se lembrassem daquele ideário antigo da educação: “Quanto mais se sabe, mais necessitamos aprender”.

E assim, sensibilizados pela humildade, quem sabe não achariam caminhos relembrando os versos da velha e nova canção de Milton Nascimento:

“Coração de Estudante
há que se cuidar da vida
há que se cuidar do mundo
tomar conta da amizade
alegria e muito sonho
espalhados no caminho
verdes, planta e sentimento
folhas, coração, juventude e fé.”

Altair Sales Barbosa é professor titular da Universidade Católica de Goiás.
PUBLICADO NO JORNAL "O POPULAR" DE GOIÂNIA EM 21/09/2007

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

A Mordaça dos Inocentes

Por que o título de Patrimônio da Humanidade para a Cidade de Goiás é discutível

Na euforia de se comemorar os 500 anos do início da colonização por-tuguesa no Brasil, movimentos de todos os matizes eclodem pelos diversos cantos do País, alguns autênticos, outros ridículos.

Por essa vereda, às vezes nem tanto luminosa, iniciou-se um movimento para transformar o sítio urbano da cidade de Goiás em Patrimônio da Humanidade. Quando os portugueses chegaram aonde hoje se situa a cidade de Goiás a região já era densamente habitada. Há mais de 550 gerações, os índios já faziam da Serra Dourada, que docemente lavava seus pés no rio Vermelho, a sua morada constante e o local onde recolhiam seus sustento. Daí tiravam os frutos, os remédios, a lenha e todos os utensílios.

A colonização portuguesa chegou aos sertões de rio Vermelho no final do século XVII. Nessa época, os antigos índios caçadores e coletores haviam já dominado a tecnologia da cerâmica e da agricultura e construído aldeões que abrigavam mais de 1.200 pessoas.

Os colonizadores portugueses, apoiados por uma sangrenta ideologia, chegaram fortemente armados. Estavam à busca de pedras preciosas e escravos. Pilharam as roças dos índios, violentaram as mulheres, trouxeram doenças desconhecidas, incentivaram a guerra entre as nações indígenas, para enfraquecê-los.

Os religiosos que acompanhavam esses destacamentos armados tentaram converter os índios em cristãos. Muitos índios conseguiram fugir, os que não conseguiram foram aldeados, depois catequizados, mais tarde exterminados. E assim esses novos conquistadores, sob a égide do poder religioso e do poder político, foram expulsando os primeiros habitantes da região e às custas de chibatadas no lombo dos escravos foram edificando seus símbolos de poder, na forma de um sobrado aqui, outro ali, uma igreja, um palácio etc.

Modificaram as condições do rio, no afã de pepitas preciosas. No lugar onde os índios tinham suas roças, implantaram novos roçados, com a força do luzir da foice e da enxada do negro. Trouxeram frutas estranhas, como a manga e a fruta-pão originárias da Ásia, trouxeram lima, limão, laranja, banana e pastos estranhos para um novo e estranho animal recém-introduzido. Assim é que, de repente, sem planejamento os núcleos mineradores se transformaram em núcleos urbanos. Isso foi há bem pouco tempo. Os descendentes desses colonos se julgam os autênticos representantes da cultura goiana.

Ao se levantarem, limpam seus dentes com creme dental, inventado na Europa e difundido pelo capital americano. Sentam-se à mesa para tomar seu café com bolo de arroz. O café é de origem arábica e o arroz asiático. Se deliciam com o saboroso empadão , cuja massa é feita de trigo, originário do velho Mundo, temperado e recheado com cebola, lingüiça, azeitona e batata. Desses, o único ingrediente nativo é a batata. No café da tarde, às vezes uma vaga lembrança do índio, a tapioca de origem indígena, misturada com queijo de origem européia, dá origem a um delicioso pão-de-queijo.

Não satisfeitos esses autênticos representantes da falsa cultura nativa, às vezes, saboreiam o que chamam de típica pamonha, cujo milho domesticado no México e irradiado para a Cordilheira dos Andes já fazia com que os índios andinos conhecessem a pamonha há mais de 5 mil anos.

Nas sobremesas , esses autênticos nativos juram servir guloseimas típicas endêmicas, servem o alfenim, de origem árabe/portuguesa, e doces cristalizados de figo, laranja, limão, todos de origem exótica. Seus festejos mais tradicionais, na realidade, são um ato de violência que o mundo há muito tenta esquecer. Trata-se de homens encapuzados perseguindo um pregador da paz e do amor.

Quando os encapuzados vencem, o justiceiro é crucificado. A elite delira: é a ânsia e então seus representantes da falsa cultura na-tiva vestem seus ternos de cashemir inglês, calçam seus sapatos de cromo alemão e vão até um teatro ouvir músicas medievais, tocadas por flautas, clarinetes, fagotes, piano. Todos instrumentos que certamente foram importados.

E então os falsos sábios dessa cultura se deliciam e, por um lapso de momento, se identificam com sua real cultura.

Hoje, essa elite luta para preservar os símbolos do poder que a identificam e procura transformá-los em patrimônio da Humanidade. Este pequeno relato mostra como esse patrimônio foi construído. À custa da violentação das mulheres indígenas, da extinção de milhares de índios, da pilhagem, das chibatadas no lombo dos negros escravos e do grande prejuízo ambiental.

É louvável a luta daqueles que querem transformar em Patrimônio da Humanidade parte desse complexo arquitetônico, porque de fato isto é passado, embora paire na cabeça de alguns uma deturpada concepção de passado. Em todo caso é louvável, mas que este tipo de relações sociais não seja tomado como exemplo para a humanidade futura.

Foto de Paulo J.S.

Meco, leve-me junto no seu embornal



Quando da última passagem do cometa de Halley, próximo à orbita da Terra, me encontrava num local que denominei "paraíso". Muitas lagoas, as veredas se perdiam nas vastidões dos olhares. Caminhando a pé com um grupo de pesquisadores, andávamos dias por entre as vegetações variadas do cerrado. Estávamos buscando afloramentos de arenito silicificado para encontrarmos os vestígios da nossa ancestralidade indígena. Num certo momento, em meio às reflexões e indagações que orientavam nossas noites no acampamento, indaguei ao grupo: será que, quando da próxima vinda do Cometa, este paraíso ainda existirá, para que nossos filhos, e talvez netos, possam ter o privilégio de ver as cenas que hoje tanto nos embelezam?


Neste momento, um dos pesquisadores da equipe, professor Binômino da Costa Lima, o maior entendedor dos segredos do cerrado, conhecido na região de Jataí por "Seu Meco", disse (não sei se falou sério ou em tom de brincadeira, mas assim ele falou): se nossos governantes e instituições permitirem a destruição desse paraíso e eu ainda me encontrar vivo, não suportarei tamanha dor, pegarei meu embornal, embrenharei por um caminho que só eu conheço, até encontrar minha fonte d'água preferida. Lá descansarei numa pedra e, ouvindo os sons dos passarinhos, tentarei recuperar minhas forças enfraquecidas.


Realmente aquele local era o paraíso! O cerrado viçoso esparramava o cheiro dos frutos que aromatizava as fontes, que jorravam águas para as veredas. Aqui e acolá, avistavam-se bandos de emas, veados do campo e tantos outros animais que nossos olhos brilhavam de alegria. Era tempo de árvores, tempo de rios, tempo de brisas, tempo de inspiração e tempo de muita esperança. Esperança nos homens e, acima de tudo, esperança nos caminhos que a Universidade estava tomando. Era tempo de busca. Busca de novos horizontes, busca de saberes novos e a Universidade se abria às vozes, aos sons e à sabedoria das populações tradicionais, que naquela época ainda estavam fincadas naqueles longínquos rincões. No caminho das águas uma árvore velha observa a velha senhora. Elas são do mesmo tamanho. Elas têm a mesma raiz. Estão ambas sentadas sobre as pedras. Vem a chuva e elas abrem a boca. Vem a tempestade e elas se fincam nas pedras. Vem o sol e elas bebem a chuva. Se curvam diante do sol, como se murchassem. Elas reverenciam.


O tempo ainda não trouxe novamente o Cometa de Halley, passaram-se só 20 anos, mas trouxe a destruição de um edifício de sonhos. São tempos de destruição, tempos murchos. As plantas do verdejante cerrado foram jogadas ao chão, muitas viraram carvão. As nascentes, que outrora fervilhavam, minguaram lentamente, deixando exposto em alguns locais um torrão endurecido, semelhante a formigueiro abandonado. As lagoas se transformaram em gotas d'água, os covais e os chapadões ostentam extensas monoculturas na época das águas. Quando chega a seca, só se vê no local sombrias nuvens de poeiras. A velha e a árvore mudaram não sei pra onde. No coração certamente não mais carregam uma flor, talvez uma grande dor.


Neste processo, o tempo dos homens falou mais alto, os políticos foram guiados pelo tempo do imediatismo, as transformações vieram pelo tempo acelerado da tecnologia que acentua o tempo do capital excludente, que gera o tempo da alienação, que criou o tempo do "estranho no ninho" que se debate esperando o tempo...


Hoje o tempo da modernidade é capaz de colocar valor em tudo, até no universo, mas não é capaz de valorar a vida. Por isso, professor Meco, quando se embrenhar por aquele caminho, me leve junto no seu embornal, quem sabe encontraremos a semente geradora de um novo universo.


PUBLICADO NO JORNAL "TRIBUNA DO PLANALTO" EM 15/04/2006

Carta aberta ao Povo de Deus e à CNBB




Quando em 2005 o bispo da Diocese de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, simbolizou um jejum através de uma greve de fome conclamando a atenção do povo brasileiro sobre os riscos da transposição do Rio São Francisco, cujo projeto vinha sendo arquitetado na surdina pelo governo federal e discutido com certa dosagem de omissão social pelos reais pesquisadores brasileiros, fez despertar na Nação brasileira a necessidade de discutir com maior profundidade este seriíssimo tema.

Nessa perspectiva, inúmeros seminários foram realizados nas universidades, Igrejas e outras entidades, por pesquisadores, técnicos, movimentos populares e população em geral, em vários pontos do País. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), à época – além do governo federal –, foi a primeira instituição, com exceção de alguns bispos, a condenar aquele ato do nosso irmão d. Luiz Cappio, alegando caracterizar-se um ato contra a vida. O governo do Brasil, talvez surpreso com a reação dos brasileiros e com a insistência de d. Luiz em manter o jejum, demagogicamente enviou um de seus emissários, o então ministro Jaques Wagner, para negociar com o bispo a interrupção do jejum, com promessas levianas e desprovidas de conhecimentos de ecologia. Naquela ocasião, percebendo a inconsistência dos argumentos governamentais e diante da aceitação de d. Luiz Cappio de encerrar seu período de jejum, escrevi um artigo (O POPULAR, 17/10/2005) intitulado Enganaram o bispo.

De lá para cá, vários movimentos, reuniões, palestras salpicaram em todo o Brasil, incluindo reuniões com o próprio governo federal. A partir de então a própria CNBB e as Escolas Católicas começaram a dar muita ênfase em seus pronunciamentos sobre a valorização e a luta pela vida como um todo, incluindo com muita força as questões ambientais. A última Campanha da Fraternidade sobre Amazônia e vida é o reflexo dessa compreensão.

Assim, todos devemos entender que a atitude tomada por d. Luiz Capppio é um exemplo de luta pela vida do Rio São Francisco, pela vida dos seus afluentes e pela vida de toda população ribeirinha situada ao longo da vasta bacia do Rio São Francisco.

Os pesquisadores brasileiros, sérios, já demostraram através de seus estudos que executar a transposição do Rio São Francisco, dentro do contexto atual em que se encontra a degradação do Cerrado, de cujos aqüíferos saem os alimentadores do grande rio, é acelerar a sua morte e a de seus afluentes, que já vivem em estado de inanição.

Talvez à época de d. Pedro II, idealizador do projeto, o impacto da transposição fosse menor, porque ainda tínhamos o Cerrado nos chapadões centrais do Brasil. Hoje a realidade é outra.
Portanto, nós que já fomos tantas vezes iludidos, devemos prestar bem atenção no que se esconde detrás do argumento governamental de que vai realizar a transposição para matar a fome dos nordestinos – isto não passa de uma grande falácia. Na realidade, a ânsia pela transposição é mais uma armadilha do capital internacional e do modelo econômico elitista e predatório financiador de canaviais, para que a Caatinga, da mesma forma que o Cerrado, ambos biomas não inclusos como Patrimônios Nacionais, se transforme em grande área propícia para a exportação do etanol.

Famintos não existem somente no Nordeste brasileiro e a fome não se cura com transposição, basta olharmos as populações dos bairros pobres e das periferias, morros e favelas das grandes cidades brasileiras.

Portanto, é importante neste momento em que a CNBB evoca a luta pela vida e pelo meio ambiente, que apoie sem restrições, em nome do povo de Deus, o exemplo de d. Luiz Cappio, porque foi ele quem despertou mais cedo para acordar toda aldeia.

PUBLICADO NO JORNAL "O POPULAR" DE GOIÂNIA EM 10/12/2007

Enganaram o Bispo



Bendito seja louvado o ato do bispo da Diocese de Barra, Bahia, dom Luiz Flávio Cappio, por tomar a atitude de jejuar e chamar a atenção dos brasileiros para um problema gravíssimo: o projeto de transposição do rio São Francisco que, sorrateiramente, está sendo preparado pelos técnicos e burocratas do Governo Federal sem uma discussão maior e profunda com a comunidade científica brasileira e também com a população. Afinal de contas, o rio São Francisco é o mais brasileiro de nossos rios maiores. Ele nasce e deságua em terras brasileiras.

O Bispo chamou a atenção para um assunto muito mais complexo do que se imagina. Por isso, precisa ser ouvida a honesta comunidade científica brasileira, para que, ao tomar sua decisão final, o Governo não se restrinja às opiniões de seus técnicos nem às opiniões de técnicos ligados às empreiteiras da obra. Porque estes, para usar uma expressão nordestina, são cabras desmoralizados, que só pensam em engordar suas contas bancárias, ou rechearem suas cuecas. Portanto, o ato de Dom Cappio abre a possibilidade para que a imprensa colha informações dos cientistas brasileiros e leve o problema, de forma correta, ao conhecimento do povo.

Infelizmente o Bispo foi enganado e parece que sua luta chegou ao fim, a não ser que tome outras atitudes corajosas; caso contrário, cairá brevemente no esquecimento da fraca memória do povo brasileiro. Foi enganado pelos Doutores da Lei da própria Igreja Católica, que publicamente condenaram o seu ato, recorrendo a não sei que tipo de lei para justificarem suas posições contrárias.

É preciso lembrar que o verdadeiro cristianismo se constrói com coragem, determinação, amor, sabedoria e radicalismo, no sentido de se cortar o mal pela raiz. O próprio Jesus Cristo, antes de tomar atitudes, tidas como revolucionárias, tinha o hábito de jejuar. E, nos seus ensinamentos, diz ser o jejum um ato purificador e de coragem. Foi enganado também pelos ministros e técnicos do Governo Federal, que o procuraram para garantir que faria a obra, porém antes se comprometeria a fazer a revitalização do rio São Francisco.

Senhor Bispo, a revitalização do São Francisco não depende da boa vontade do Governo, nem de decretos ou Medidas Provisórias. Também não depende do nosso amigo São Pedro, controlador das torneiras do céu, porque se algum dia for possível revitalizar o São Francisco é preciso levar em consideração o tempo da natureza, que é medido em milhares e milhões de anos. Portanto, é diferente da escala de tempo, que regula o mandato dos governantes.

O rio São Francisco nasce no Cerrado de Minas Gerais, num local denominado Serra da Canastra, e percorre mais de 3.000 km até chegar ao Oceano Atlântico. Ao longo desse percurso, vai engrossando suas águas, principalmente com seus afluentes da margem esquerda, que formam as sub-bacias do rio Paracatú, do rio Urucuia, do rio Carinhanha, do rio Corrente e do rio Grande. Todos esses rios e seus alimentadores menores estão morrendo a cada hora que passa. Alguns já desapareceram para sempre. Isto acontece porque os dois grandes aqüíferos que fazem o São Francisco brotar e o alimenta ao longo do seu percurso, conhecidos como Aqüífero Bambuí e Aqüífero Urucuia, estão secando.

Para entender este fato é necessário recuar no tempo, pelos menos 35 milhões de anos. É nesta época que surge o cerrado que, com seu sistema radicular complexo, começou a reter as águas das chuvas que caíam principalmente nos Chapadões do Noroeste de Minas e Oeste da Bahia, Distrito Federal e Nordeste Goiano. Essas águas primeiro são armazenadas nas rochas moles que formam o lençol freático; depois, pela abundância, infiltram pelas brechas das rochas e se acomoda nos lençóis profundos também chamados de artesianos. No Bambuí, que é calcário, esta água, após atravessar a Formação Urucuia, que é arenosa, se armazena nas imensas galerias comuns às formações calcárias. No Urucuia, a água, com o tempo, foi formando grandes reservatórios que se acomodavam por entre os poros dessa rocha mole.

Quando os aqüíferos retiveram água suficiente, esta começou a brotar, na forma de nascentes, principalmente nas testas da Serra e na forma de pequenas lagoas nas áreas aplainadas, formando as veredas. Com o tempo as águas, como lágrimas milagrosas, começaram a descer em direção a leste, encontrando a calha do seu condutor mór, o rio São Francisco. E assim foram se formando paisagens que deveriam ser maravilhosas. Ao longo dos rios surgiam lagoas e banhados, onde se multiplicavam, em grande quantidade, os peixes que outrora eram abundantes, não só no São Francisco, mas em todos os seus afluentes. Hoje, pergunto onde estão os surubins, os pacus, os dourados e outros, que saciavam a fome de um grande contingente populacional?

Senhor Bispo, certamente lhe disseram que irão repovoar o rio através da soltura de alevinos. É sempre bom lembrar que a cadeia alimentar desses filhotes de peixes se inicia nas lagoas e matas ciliares, ambientes produtores de fitoplânctons. Nem as lagoas nem as matas ciliares contínuas existem mais.

Entretanto, pior que um rio sem peixes, é um rio sem água. Foi dito que os aqüíferos Bambuí e Urucuia, alimentadores do São Francisco, estão secando. Não se trata de uma afirmação irresponsável nem demagógica. Um aqüífero é recarregado pelas suas bordas, onde existem os terrenos planos que impedem o escorrimento rápido da água. A vegetação nativa dessas áreas planas, chamadas chapadões, retém no mínimo 70% das águas das chuvas. Estas águas vão alimentar os lençóis subterrâneos, que por sua vez alimentam as nascentes, os córregos, os riachos e os rios. Este processo de formação e recarga dos aqüíferos vem acontecendo há pelo menos 35 milhões de anos, numa Época Geológica denominada Mioceno.

A partir de 1970, a vegetação nativa do cerrado, que ocupava os chapadões, capinas e tabuleiros, foi sendo, num ritmo cada vez mais feroz, substituída por plantações de grãos: primeiro, a soja; depois vieram outros e agora vem a cana com toda voracidade. O cerrado que existia em solo onde a agronomia ainda não tinha tecnologia para sua correção foi sendo retirado e transformado em carvão.

Conseqüência: a chuva continuou caindo, mas não infiltrava como anteriormente, nem era absorvida pelo complexo sistema radicular da vegetação nativa, porque esta não existia mais. As plantas exóticas introduzidas têm raiz sub-superficial e não chegam a reter 20% das águas. Além do mais, como são culturas temporárias, fazem com que em grande parte do ano o solo fique desnudo, aumentando a perda da umidade do lençol freático. Acrescente-se a isso os pivôs centrais que, nos chapadões, são alimentados através de poços artesianos. Ou seja, além de não estarem sendo recarregados normalmente, a pouca água existente nos aqüíferos ainda é sugada para umedecer as grandes plantações, que não retém o excesso dessa água, que acaba evaporando.

Para falar em revitalização é necessário o conhecimento da ecologia e da história evolutiva do cerrado. O cerrado é a maior diversidade florística do planeta. Um plano de revitalização levaria isto em consideração?

Quanto tempo leva para atingir a maior idade a árvore do burití? da buritirana? da mangaba? os arbustos, as gabirobas, as bromélias e as gramíneas? Ou seja, ainda não existe uma tecnologia eficiente capaz de restabelecer a biodiversidade do cerrado.

Já foi demonstrada a importância que as plantas nativas do cerrado tem para a recarga dos aqüíferos. Os que falam em revitalização deveriam saber também que o cerrado já atingiu seu clímax evolutivo. Isto significa que, uma vez degradado, jamais se recupera na plenitude de sua biodiversidade.

O fato é que a existência do rio São Francisco depende de fatores ecológicos extremamente complexos e interdependentes.

O processo de desaparecimento dos seus alimentadores está acontecendo num ritmo mais acelerado do que imaginávamos e infelizmente êsse é um processo irreversível. Portanto, qualquer obra que coloque em risco o frágil equilíbrio do rio São Francisco pode significar a sua morte, num tempo mais curto que aquele que podemos imaginar.

O raciocínio é simples: a chuva que caía era absorvida em grande parte pela vegetação nativa e ao longo de muito tempo foi-se formando aqüíferos formidáveis, que fazem suas descargas nos declives e áreas baixas formando os rios.

Era como se fosse um imenso reservatório, abaixo de nós, alimentando os rios. Uma grande caixa d'água com vários furos enfileirados de cima para baixo. Quando o reservatório estava cheio a água jorrava por todos os furos. A medida que o nível ia se baixando a água que jorrava dos furos superiores deixava de correr. E assim sucessivamente. Êste fenômeno é conhecido pelo nome de migração de nascentes. E assim está acontecendo: a migração das nascentes provoca o desaparecimento de pequenos cursos d'água no início, mas à medida que o processo se acentua os cursos maiores são afetados, até desaparecerem totalmente. De vez em quando vão ocorrer cheias estrondosas, mas isto não significa que o rio ressuscitou; são fenômenos efêmeros provocados por enxurradas resultantes de chuvaradas, que se deslocam pelos antigos caminhos d'água.

Usando a figura da novela nordestina poderia se dizer:

É a derrubada,
São os grãos,
É o lençol que diminui,
É a seca,
Se continuar assim,
A passagem pra morte,
É o tempo!

Portanto, Dom Cappio, compartilho da sua atitude e o parabenizo pela coragem. De onde estiver estarei comungando com o Senhor. Entretanto, se a situação de degradação dos alimentadores do São Francisco continuar no ritmo desse modelo econômico, imposto pelo capital internacional, e se o Senhor tiver que esperar pelos resultados da revitalização, é bom, por precaução, levar para o próximo jejum as encomendadeiras de alma, para rezarem por nós e pelo rio. Provavelmente a água será incorporada no seu próximo jejum.

O que se espera é que os acomodados olhem mais para o povo e deixem a vã legislação ou normas para o bom senso resolver.

É claro que a revitalização é impossível, mas há, no Brasil, pessoas honestas e com conhecimento para sugerirem ao Governo programas de planejamento ambiental que amenizem o problema.

Entretanto, o presidente Luis Inácio, que sempre usou nos seus discursos o tema das moratórias, que tenha ao menos a coerência de apoiar e tomar iniciativa para estabelecer uma moratória ambiental. Assim faria um grande bem ao povo brasileiro.

PUBLICADO NO JORNAL "O POPULAR" DE GOIÂNIA EM 17/10/2005

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Memorial do Cerrado - ITS / UCG





Museu de História Natural


Vila Cenográfica Santa Luzia (Ambiente Urbano)


Fazenda Baraúnas (Ambiente Rural)


Aldeia Timbira


Quilombo