domingo, 6 de dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

No centro do retrocesso e na contra–mão da história

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Diante da falência e da inutilidade do sistema universitário privado brasileiro, com raras exceções, muitas Universidades, incapazes de proporem idéias e métodos altamente inovadores ou mesmo revolucionários, tentam cobrir a ferida com esparadrapo como se isso bastasse para curar as enfermidades. Essas Universidades, não são capazes de atrair e prender a sua clientela pela competência e utilidade dos cursos oferecidos, também não são capazes de cultivar um novo tipo de saber para superar a alienação e preparar as pessoas para uma realidade globalizada, muito pelo contrário preferem mergulhar em reformas retrógradas, com organogramas pomposos como se isto fôsse sinônimo de qualidade.

Como reflexo dessa mentalidade, algumas Universidades estão cultivando a possibilidade de aglutinarem seus cursos e atividades em grandes áreas de conhecimento que se denominam CENTROS, sustentados em argumentos ilusórios do economicismo. Na prática, a funcionalidade deste sistema impede a inter-relação entre os saberes, e, como consequência, acentua o processo de alienação. Diante de tal situação e dentro dos parâmetros do embate científico/ideológico, no bom sentido, ficamos a indagar:
Será que deixamos a Utopia acabar?
Será que a alienação é um problema do passado ou da contemporaneidade?
Ainda é possível resolver as questões da vida, que é a libertação de todas as prisões culturais, ideológicas e intelectuais que mantém o Homem em situação desumanizada?
Será o homem capaz ainda de desenvolver toda a sua humanidade e varrer de vez a alienação?

A grande maioria dos estudos contemporâneos, apontam que a raiz dos males da sociedade moderna reside na dicotomia Homem-Natureza, que por sua vez é a base na qual está a essência da cultura ocidental. Esse é o grande paradigma da contemporaneidade. Muitos homens de visão e organismos internacionais, incluindo a própria ONU, procuram soluções para os problemas advindos deste modelo. Os vetores apontam com muita segurança que a holistização do saber é um caminho forte para se construir uma sociedade igualitária.

O geógrafo e pensador Ruy Moreira, leva-nos a refletir para entendermos esse universo, ressaltando três pontos importantes que caraterizam a cultura ocidental e que hoje, por força da globalização, atinge todo o mundo.

O primeiro ponto, refere a DESNATURIZAÇÃO DO HOMEM, cuja origem está associada ao monoteísmo da cultura Judaica, porque com o monoteísmo nasce a noção do indivíduo que tem poderes para dialogar diretamente com a divindade, separando o eu do corpo e criando a noção de natureza humana e natureza externa.

Ao longo da Idade Média a DESNATURIZAÇÃO vai ser sedimentada e no Renascimento é radicalizada, quando o pensamento científico é sistematizado. A natureza é tratada como um corpo externo, surgindo assim os limites entre os saberes, como por exemplo Ciências Humanas X Ciências Naturais. Os limites entre as ciências são paradigmas da modernidade, que nasce com a desnaturização do homem e se constitui no primeiro passo para a alienação. A noção de indivíduo é reforçada e traz como conseqüência a noção de propriedade privada. Nota-se que é o próprio capitalismo quem está nascendo.

Com as modificações produzidas pelas revoluções industriais, um outro fator acontece: êxodo forçado, a saída do homem do campo. Num primeiro estágio, esse fenômeno denominado DESTERREAÇÃO atinge as famílias camponesas tradicionais que moldaram a nossa ruralidade regional. Com o incremento da tecnologia e o avanço do capital, são comunidades inteiras que hoje são desestruturadas e desabrigadas, criando o fenômeno da DESTERRITORIALIZAÇÃO.

A DESTERRITORIALIZAÇÃO traz para nossas portas a categoria dos SEM (Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Emprego, Sem-Pátria, Sem-Documentos, etc). Esse fenômeno acentua ainda mais a sensação e condição de alienação e, é justamente isto que cria um mal-estar dentro da Universidade, gerando uma sensação de inutilidade.

A ciência não consegue mais explicar os acontecimentos porque os paradigmas explodiram.

A busca de respostas que possam originar o convívio entre os homens, o desenvolvimento humano, de forma a preservar os recursos naturais para gerações futuras, vem sendo intensificados desde 1972, na Conferência de Estocolmo, com representantes de 113 países, 19 órgãos intergovernamentais e 400 organizações intergovernamentais e não governamentais, contribuíram para fomentação de questões relativas à preservação ambiental e o desenvolvimento da qualidade de vida. Esta conferência lançaria “um novo movimento de libertação” que, segundo alguns, só poderia ser alcançado cultivando um novo tipo de saber, calcado na pesquisa e integração das diversas áreas do conhecimento. Este grito de alerta lançado pela ONU, continuou nos anos posteriores e chega até os dias atuais com a organização de vários fóruns sociais promovidos tanto por organismos governamentais, como pela sociedade civil, todos empenhados na busca de um novo tipo de saber capaz de promover o retorno da NATURIZAÇÃO DO HOMEM. Para tanto é fundamental que as Universidades que se configuraram como uma caixa aglutinadora de conhecimentos, procurarem a sua própria essência que corresponde a sua origem latina UNIVERSITAS UNIVERSITATIS, ou seja, a Unidade na Diversidade.

A criação de Centros que estabelecem limites fictícios entre os diversos saberes transformam, na prática, a Universidade em PLURIUNIVERSIDADE, constituída de CENTROS AUTÔNOMOS, onde pontificam a pretensiosidade da cátedra, “curricula” estanques; métodos empíricos e desconhecimento da interdisciplinaridade. Mas o mal pior é que com a criação de Centros autônomos e estanques, a Universidade se coloca na contra-mão da história, se posicionando contra todo o mundo que enxerga na busca de um novo conceito de saber, a solução para superar a alienação das pessoas e resolver as questões da vida que, como já foi dito, constitui na libertação de todas prisões culturais, ideológicas e intelectuais que mantém o homem em situação desumanizada. Parece que a força do economicismo está irradiando um tipo de fraqueza entre os que querem mudar esta realidade.

“Depois que chegou a estrada de asfalto era bom continuar pra lá e ir cuidando no caminho. A estrada que dizem que chegou, estava era indo. Daqui pra lá foi gente, veio coisa. Foi crença, veio nada.”
( Larissa Malty).

Prof. Dr. Altair Sales Barbosa
Professor Titular da PUC-GO – Instituto do Trópico Subúmido e HGSR

domingo, 22 de março de 2009

Globo Rural nº 1500 - Especial sobre Buriti

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O buriti é uma palmeira nativa das Américas Central e do Sul. No Brasil, ele ocorre, basicamente, na região de cerrado. O buriti é uma palmeira nativa das Américas Central e do Sul. No Brasil, ele ocorre, basicamente, na região de cerrado. Tem larga distribuição por dez estados do Brasil central, centro-oeste e parte do sudeste. Além da grande importância econômica e social, o buriti é vital para a vereda, o caminho das águas no sertão.





Prende a suspiração
Cena assim tão linda
Palmeira que não se finda
Em 40 quilômetros de extensão

Esta é a vereda do gibão
Quase no ponto do mapa
em que três estados dão a mão
Minas, Goiás e Bahia
onde o cerrado enfeita o chão




Imagine se o país
feito uma casa de morar
tivesse telha assim em quina
modo da água escoar
pois isso que nos fascina
daqui dessas alturas
tem função de cobertura
é um gigantesco cantil
Esta é a cumeeira do Brasil

“Cumeeira geralmente é a parte mais alta da casa. Quando chove, em cima dessa casa, esta água é distribuída para todos os cantos”, explica Altair Sales Barbosa, professor da Universidade Católica de Goiás.

Na Universidade Católica de Goiás, campus de Goiânia, o professor Altair Sales Barbosa há 40 anos estuda o cerrado.

A aula é sobre os depósitos subterrâneos de água, chamados de aquíferos. Os principais são o Guarani, o Urucuia e o Bambui. Eles se encontram no coração do cerrado, a quina do telhado no Planalto Central. Da vertente sul, brotam as águas da bacia Paraná; a leste, as que alimentam o São Francisco; ao norte, os que alimentam parte da Bacia Amazônica.

Formados há milhões e milhões de anos, os aquíferos são continuamente reabastecidos pelas chuvas. O solo poroso do cerrado facilita a infiltração. Cheio, o aquífero vaza pelas nascentes, garantindo a água dos rios mesmo no longo período seco. E a água iria embora rapidamente se não fosse uns reguladores, umas válvulas com que a natureza presenteou o cerrado: são as veredas. Essas áreas alagadiças onde se destaca o palmeiral.

O nome de um lugar
feito grama se esparrama
Se a ele se associar
um marco de boa fama

Nova York tem a Liberdade
Paris a torre que chamam de Eiffel
Rio de Janeiro o Redentor

Vereda anuncia o cerrado
mas nomeou um encarregado
pra ter propaganda de si
é o vistoso monumento
que com respeito eu apresento
sua excelência, o buriti

“Os buritizais e as veredas são basicamente da mesma idade do cerrado, ou o capítulo inicial da história do cerrado”,
explica Altair Sales Barbosa, professor da Universidade Católica de Goiás.

Segundo o professor Altair, essa espécie de buriti das veredas, que leva o nome científico de “mauritia flexuosa”, pode estar no grupo dos seres vivos mais antigos do planeta. Viria lá da remota, longínqua da formação do cerrado.


“O buriti, junto com as veredas, começaram a se formar por volta de 65 milhões de anos”, diz o professor.

O buriti é de crescimento lento. Se alça do chão não por um caule, mas, pelas folhas. Pode passar anos para soltar o tufo de folhagem, primeiro; e levar décadas para expor todo o tronco e frutificar. Alcança altura média de vinte e cinco metros. Na coroa do poste, abre as palmas, um leque gracioso que dá vida à brisa. Às rajadinhas suaves que encanam na vereda um murmúrio como se fosse de praia.

O coquim do buriti,
você já viu um mais
bonitim?

Redondo pro ovalado
tem escama de desenho quadriculado
polpa amarela e o caroço amendoado
a castanha que é um banquete
pros bichos do cerrado




Buriti é morada
Ponto de passagem, de espreita,
esconderijo, restaurante de uma fauna numerosa
Especialmente, os que voamos papagaios, as maritacas
A maracanã, a jandaia, a cacaué

E, principalmente, as araras
Tanto a azul, como a vermelha, e a canindé

Pros bichos que andam no chão,
Vereda não é um ambiente fácil de se entrar, não

Do buriti é a grande fonte
do que quer que se conte
O escritor que remoeu o sertão
nasceu em Cordisburgo
A cidade do coração
em frente a estação de trem
onde, do outro lado da rua
o pai tinha um armazém

Você já se sentiu um pontinho
solto assim num oco de mundo
sem cerca nem vizinho
o horizonte lá no fundo?
Pois toda a esparramança
uma imensa vastidão até onde a vista alcança
é o chamado grande sertão
A largueza do cerrado
desenha a solidão

Fora o fogo e o pisoteio
Houve também o devaneio
do plantio de eucalipto
Desastroso incentivo
de floresta comercial
no meio do mato nativo

Um grande diz
que vamos ter com certeza
para que as regras do país
levem em conta a natureza
tanto da nossa pobreza e riqueza
como dos nossos buritis.

Assim, quem sabe,
um dia possa o Grande Sertão: Veredas
ter um final feliz.




















Programa Globo Rural exibido em 22/03/2009

Fonte: http://globoruraltv.globo.com/GRural/0,27062,LTO0-4370-334096-1,00.html

Sobre a Matéria: http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1698643-2869,00.html