sexta-feira, 16 de junho de 2017

PEQUENA REFLEXÃO SOBRE O GÊNERO HOMO



Altair Sales Barbosa


Em algum momento do Pleistoceno, ou quem sabe ainda no final do Plioceno, o gênero Homo surge na África, fruto de um complexo, dramático e complicado processo evolutivo.

Este processo, até o presente, foi caracterizado por adaptações coroadas de êxitos, selecionadas sabiamente pela natureza, fenômeno que Charles Darwin denominou seleção natural.

O homem é um animal estranho que pertence à ordem dos Primatas, tem dentes fracos e boa visão. O polegar das mãos se opõe aos demais dedos, o que lhe permite manipular e transformar a natureza em objeto de sua extensão. Seu cérebro é desenvolvido, o que lhe dá inteligência suficiente para pensar, premeditar e arquitetar ações.

A fêmea ao cabo de cada gravidez de nove meses, normalmente, dá à luz, a uma só cria, que é amamentada com muito carinho.

Tem a capacidade de chorar e de sorrir, na dor e na alegria. Faz guerra e mata seu semelhante, mas também tem a capacidade de cooperar quando é sensibilizado.


Pode ser educado, domesticado ou dominado sempre por seu semelhante. Quando consciente, busca a liberdade.


sábado, 3 de junho de 2017

CONTRATAM-SE DOUTORES E MESTRES


Um Vento de Poeira Ameaça a Educação Superior do Brasil.

Altair Sales Barbosa

Um anúncio publicado nos meios de comunicação expressa: Empresa de porte médio está contratando doutores, mestres, especialistas e até graduados, em diversas áreas do conhecimento, para trabalho na capital e interior. Não se exige como pré-requisito o conhecimento específico da área, mas é obrigatório, no ato da inscrição, apresentar a titulação legalizada pelos órgãos competentes.

Os profissionais serão selecionados por uma banca examinadora composta por doutores. A banca levará muito em conta o conhecimento generalista do candidato e o compromisso de que em nenhum momento irá questionar ou desobedecer às ordens e procedimentos de seus superiores.

Os serviços a serem contratados serão oferecidos e desenvolvidos na forma de aulas, para faculdades, universidades e até escolas fundamentais.

Os interessados deverão enviar seus currículos para a empresa Curral Fechado, Rua Ponta do Círculo s/n, CEP:000 000 – 000.

O anúncio, quando publicado causou surpresa em muitos e preocupação em alguns, parecia tratar-se de brincadeira, mas na realidade era o prenúncio de encruzilhadas pelas quais guiavam algumas instituições de ensino do Brasil, especialmente as de ensino superior.
        
As aulas foram se tornando vazias e abstratas. As universidades por sua vez, foram abandonando e burocratizando a digna tarefa da pesquisa, eliminando seus bacharelados e recheando suas licenciaturas com conhecimentos pedagógicos duvidosos e desonestos para com as novas gerações, já que os conhecimentos divulgados foram-se desvinculando de compromissos éticos, morais, culturais e científicos. 

O professor na sala de aula, passou a exercer a função de difusor de conhecimentos generalistas, recheados de informações colhidas nos meios de comunicação e na mídia virtual. Os alunos, como figuras mutiladas e degradadas, quando formados, seriam jogados numa arena para uma competição global, semelhantes a bêbados brigando num “pula-pula”.

Esse modelo seria o paraíso para aqueles que querem aniquilar a alma da universidade, que é a pesquisa científica, a produção de conhecimentos. Esses tipos de dirigentes nunca entenderam os diversos meandros da pesquisa, tanto de campo como de laboratório, nem sequer suas consequências, para a busca de respostas concretas que a sociedade atual exige. Imbuídos de paradigmas ultrapassados, buscam na força do poder e na implantação do medo o respaldo para suas atitudes.

Pesquisadores e intelectuais que não se formam por decretos, e sim pela competência e experiência, são pessoas que pensam e fazem cultura, são conscientes, críticas e até “chatas” para quem não suporta a crítica, foram aos poucos desvalorizados pelas estruturas nebulosas que começaram a reger a academia.  O modelo de terceirização foi permitindo que esses pensadores e fazedores de cultura e também críticos, fossem substituídos por grupos emergentes de profissionais terceirizados que se agarram com seus dirigentes, feito parasitas, dando-lhes a força necessária para continuarem remando suas canoas por águas calmas que passaram a refletir uma imagem macabra, na linha melódica do dizer do poeta:

“... é que Narciso acha feio o que não é espelho,
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho,
nada do que não era antes quando não somos mutantes.”

A terceirização do ensino é uma saída miraculosa para alguns dirigentes que não tem compromisso para com o futuro do país. Acabam os problemas com as ausências eventuais, pois a empresa terceirizada teria que colocar imediatamente um substituto. Economizam na compra de equipamentos laboratoriais, já que as aulas práticas e as pesquisas não existiriam mais. Restaria um ou outro laboratório sucateado. Acabariam os problemas de negociação salarial com as associações representativas de classe. A quantidade é fundamental para substituir a qualidade.

Num passado não tão distante o anúncio soaria como ficção, no entanto, hoje já se tornaram realidade em vários rincões do Brasil, portanto aquelas pessoas que se julgam verdadeiros educadores, comprometidos com o futuro, não deixem que suas gerações herdem um mundo desumano e excludente, façam o que tiverem ao alcance para que o vento de poeira, não se transforme numa tempestade avassaladora. Se porventura esta situação vier acontecer, será o fim, e de vez, será sepultada a pedagogia da esperança. Uma universidade verdadeira tem diante de si um imenso papel profético de continuar formando e oferecendo elementos pedagógicos e científicos que permitam o surgimento de opiniões desprovidas dos preconceitos e preocupadas com o futuro. Porque a educação sadia, sedimentada em princípios éticos, é o único processo através do qual o ser humano conquista sua liberdade e constrói sua felicidade. 




sábado, 27 de maio de 2017

O LIVRO DE ZUCA TROVÃO



Hélverton Baiano

Ninguém levou a sério, e nem poderia, quando Zuca Trovão, um dos nossos tantos malucos de lá, apregoou que ia escrever um livro. Mas não falava do quê, nem pra quê, mas também ninguém perguntava, mesmo porque não se via um que acreditasse nessa história. Era mais uma das tantas lorotas que Zuca, nos seus delírios encantados, trovejava pelas ruas de Saracutópolis.  Loucura lá era coisa normal e todo mundo já se acostumara, porque os doidos inventavam cada uma de fazer inveja ao mais catrozado das ideias.

Eu dei vivas a Zuca Trovão quando ele disse que faria um livro, visto que lá nós somos carentes de escritores. Nossa tradição é oral, de trovadores, declamadores, contadores de causos e inventores de histórias e piadas. Quando decretou esse enredo, a primeira coisa que fez foi pedir um caderno e um lápis no armazém de Seo Paulo do Peg e Pag. Que serventia teria, ninguém sabia, mesmo porque Zuca era tido e havido na conta dos fugitivos do Mobral e não sabia fazer o “O” com o fundo duma garrafa.

Lápis e papel na mão, Zuca Trovão soverteu por meio do mato, num retiro que nos levou a preocupação, não por causa do mato em si, com isso ele era acostumado, porque praticamente morava lá, mas porque já se passara mais de três meses que ninguém tinha uma notíciazinha sequer do doido. Quando ninguém mais esperava, e já dando a empreitada por perdida, veio o positivo de um caçador de codorna, que disse ter avistado Zuca sentado no topo duma árvore no meio do cerradão do Pau Seco da Cabeceira Grande. Dizia Que Zuca estava mesmo com um caderno e rabiscava alguma coisa, portanto era verdadeira a história da escrevinhação.

Cresceu na população a curiosidade para saber que tipo de livro e que história sairia da verve de Zuca. Já no quarto mês de sumiço e algumas diligências do delegado e dos praças, uns diinhas antes de começar a chuva, olha quem aparece? Zuca Trovão em pessoa. Carregava um embornal onde dizia estava o livro que fora escrito por ele. Para nosso desespero e comichão, alertou que não mostraria seu livro pra ninguém, mesmo sendo esse o único da rua.

Pra satisfazer o clamor popular que virou aquela curiosidade geral em Saracutópolis, o prefeito se reuniu com o delegado e a ordem foi pra prender Zuca Trovão e realizar uma sessão pública de leitura do livro escrito por ele. O fuzuê foi armado e Zuca serpenteou correndo e dando olê nos soldados e só foi sojigado porque a molecada entrou na farra pra pegá-lo. Os meninos o pegaram e foram atrás de uma corda pra amarrá-lo e levá-lo pra Prefeitura. Não iria pra cadeia não, porque ele era um preso ilustre.

Numa folguinha que deram, Zuca soverteu correndo outra vez e o povão atrás, pega, não pega, pega, não pega. Zuca correndo com seu embornal num lado e o povaréu correndo atrás. Zuca foi pro rumo da ponte e o povão correndo pega, não pega. Até que, quando já passava do meio da ponte, levou uma rasteira e o embornal com o livro dentro voou para a correnteza do rio e sumiu nas águas. Até hoje a gente fica matutando e querendo saber a história escrita por Zuca Trovão ou se realmente ele escreveu alguma coisa. No folclore do lugar apareceram mais de cem histórias atribuídas ao livro de Zuca.