sábado, 28 de julho de 2018

AINDA O VELHO CHICO




Altair Sales Barbosa
Sócio Titular do Instituto Histórico e Geográfico do Estado Goiás
Pesquisador do CNPq

A Controladoria-Geral da União (CGU) realizou uma auditoria no Projeto de Transposição do Rio São Francisco e divulgou recentemente seu relatório.
O documento merece algumas considerações:

A obra da transposição do Rio São Francisco sempre teve um viés muito mais político que social ou científico. O empreendimento, que envolve as grandes empresas construtoras e as grandes empresas de engenharia elétrica do Brasil, tem na sua base um alicerce falso, pois fala que seria realizada para atender as necessidades das populações rurais, cujas produções agrícolas e criações de animais padecem na época da estação seca.

Na realidade, este quadro continua e foi acentuado com as obras da transposição. O alicerce é falso, porque esconde desde o início o real propósito da transposição, que era patrocinar grandes projetos de irrigação dos grandes latifundiários do Nordeste, padrinho e patrocinadores dos coronéis da política regional, cujo modelo é o mesmo desde o início da colonização.

Portanto, o relatório da CGU, sobre a sustentabilidade da transposição do rio São Francisco não traz, para os mais esclarecidos, nenhuma novidade. Todos os estudiosos da bacia do São Francisco, bem como os conhecedores da dinâmica do rio, alertaram através de audiências, publicações e movimentos, quanto aos riscos da execução desse projeto.

Infelizmente, a classe política se fez surda, não deu ouvidos. Só não ficou muda porque expressava as opiniões de burocratas “geniais” que os alimentavam com argumentos surgidos entre quatro paredes e totalmente desprovidos de conhecimentos concretos.

O relatório da CGU, que agora critica a falta de planejamento para garantir a manutenção e sustentabilidade, teria que ser convincente e questionador antes de as obras iniciarem. Teria que ser ouvida a comunidade científica brasileira, teria que conhecer a dinâmica dos rios do Cerrado e sua realidade, também deveria ser conhecida a realidade e a experiência dos ribeirinhos.

Infelizmente, a classe política se fez surda, não deu ouvidos. Só não ficou muda porque expressava as opiniões de burocratas “geniais” que alimentavam seus integrantes com argumentos surgidos entre quatro paredes e totalmente desprovidos de conhecimentos concretos.

No entanto, o relatório também traz falhas horríveis em relação ao conhecimento de toda a bacia do São Francisco. Foca só em problemas locais, não tem visão da totalidade.

Todo trabalho de planejamento ambiental e organização do espaço que não leve em consideração a história evolutiva dos elementos envolvidos e que não considere as vocações regionais traz como consequência problemas de difíceis soluções, alguns irreversíveis.

Uma vez surgidos tais problemas, procuram-se soluções paliativas como tentando curar uma ferida apenas cobrindo-a com um esparadrapo. Como é o caso da resolução ANA (Agência Nacional de Águas) 1043, de 19/06/2017, denominada “Dia do Rio”, cujo objetivo é reforçar as ações que vêm sendo adotadas para preservar os estoques nos reservatórios da bacia do rio São Francisco.

A resolução determina que as captações de água da bacia sejam proibidas todas as quartas-feiras, exceto para abastecimento humano e animal.

A resolução da ANA deixa uma brecha ao não incluir de forma absoluta os corpos hídricos que não são considerados como domínio da União, mas que integram a bacia do São Francisco e são vitais para a perenização deste rio. Embora deixe claro que serão feitas articulações com os estados e comitês da bacia, sabemos pela prática que essas medidas são inoperantes.

Aparentemente, essa medida, que estabelece o dia do Rio, parece boa. É, mas não é. Ao proibir a retirada da água em alguns trechos específicos por empreendimentos agropastoris e industriais, a resolução visa preservar água para os reservatórios, que por sua vez irão alimentar a geração de energia e outras defluências danosas, como é o caso dos canais da transposição.

Portanto, se penetrarmos além das aparências, vamos notar que a resolução deixa falhas em não entender a bacia hidrográfica dentro de sua totalidade, da mesma forma que deixa dúvidas quanto a quem, na realidade, serão os beneficiados por tais medidas.

Outro ponto obscuro é a restrição aos cursos d’água superficiais, demonstrando total desconhecimento dos ciclos hídricos regionais, pois não faz menção às águas subterrâneas, tão ou mais importantes que as águas superficiais. Parece que o ciclo hidrológico se restringe às chuvas, o que não é verdadeiro. Portanto, é importante considerar a utilização das águas subterrâneas nos processos de irrigação, efetuados através de poços artesianos.

A resolução que cria o dia do Rio é um exemplo claro da falta de planejamento e de conhecimento dos processos que envolvem o rio São Francisco. Também pode ser citado como exemplo de falta de planejamento a ausência de conhecimento da ocupação humana regional.

Em 1972, no Primeiro Simpósio sobre o Cerrado, já chamávamos a atenção para a preservação do Chapadão Ocidental da Bahia, até o limite com as cristas do Bambuí, hoje limitando com os Estados do Tocantins e Goiás. Pois as águas subterrâneas naquela época ali existentes seriam uma grande reserva de água potável para o Brasil.

Mas não foi isto que aconteceu. Por serem consideradas erroneamente “terras devolutas”, o governo federal as repartiu para grandes empresários nacionais e internacionais, que recebiam no mínimo 25.000 hectares – e a única coisa que deveriam dar em troca era o desmatamento da região. Assim, por falta de conhecimento e de planejamento adequado, começou essa nova ordem territorial, que em pouco tempo traria um quadro irreversível de prejuízos ambientais e sociais para a região.

No caso específico dos alimentadores do rio São Francisco, alguns nascem em Goiás, como é o caso da Lagoa Feia, no município de Formosa, que contribui com vários afluentes do rio Paracatu. Outros nascem no Jalapão, em Tocantins, caso do rio Preto, mas a grande parte nasce no Espigão Mestre, início das campinas, baianas, mineiras e piauienses.

Pois bem, com a implantação deste novo modelo de organização territorial iniciou-se o maior processo de desmatamento no Brasil, feito a correntões. Foi só uma questão de tempo para que as nascentes, não só dos córregos, mas também dos rios, começassem a migrar das partes mais altas para as mais baixas, e alguns córregos secaram totalmente.

Por que isto aconteceu? Porque sem a vegetação nativa a água da chuva não penetrava mais como anteriormente e não recarregava os aquíferos, e estes foram baixando de nível, num processo contínuo. Embora o índice pluviométrico permanecesse o mesmo.

O curioso nesta situação é que ainda não haviam sido desenvolvidas tecnologias para a correção completa dos solos regionais, por isso as plantações iniciais, com eucalipto e pinheiros, não deram certo. Tempos depois é que foram aperfeiçoadas as tecnologias que permitiram o plantio de várias espécies, utilizando-se para isto calcário específico, muito adubo químico e uma quantidade imensa de agrotóxicos.

Muitos proprietários abandonaram as iniciativas ou venderam as terras para outros grupos de empresários, que, com a utilização de novas tecnologias, foram-se apropriando de áreas ainda maiores. Essas tecnologias, associadas à época a uma fartura de água, logo permitiram o avanço das fronteiras que cada vez produzia mais e despertava a ganância de muitos produtores, que foram diversificando suas culturas.

Com a expansão da exportação, esse processo tornou-se uma corrida incontrolável, atraindo para o local um capital dinâmico e predador, utilizando como discurso o enriquecimento fácil e a fartura de empregos. Ambos os fatores não aconteceram, primeiro porque os grandes proprietários, que não conheciam a região, expulsaram das terras as pessoas que tradicionalmente as usavam sazonalmente para a criação de animais bovinos e equinos.

Num segundo momento, com a mecanização, tirou do campo aquelas pessoas que acreditavam num emprego duradouro. Os empregos tornaram-se sazonais e eventuais, sem carteira assinada e sem garantia. Num terceiro momento, comunidades existentes nos gerais, que praticavam a agricultura familiar foram totalmente desestruturadas.

Esse fenômeno gerou uma situação esdrúxula, pois os camponeses, ao serem expulsos das terras, foram-se agregando ao redor dos postos de serviços, implantados ao longo das rodovias, para dar sustentação aos novos empreendimentos. Os homens trabalhavam irregularmente em qualquer tipo de serviço para sobreviverem, as mulheres mais vividas trabalhavam como domésticas e as mais novas foram-se prostituindo, nos dinâmicos postos de serviços que da noite para o dia se transformavam em verdadeiros polos urbanos.

Só para citar o exemplo do oeste da Bahia, vejam o caso da cidade de Luiz Eduardo Magalhães, que há bem pouco tempo era só um posto de gasolina; vejam Roda Velha, que era somente um ponto de parada; vejam o exemplo de Rosário do Oeste, que até ontem era somente Posto do Rosário, e por aí vai.

Portanto, os rios foram secando em função do desmatamento, o desaparecimento de córregos menores e lagoas já vem acontecendo desde início da década de 1980. Eu mesmo levei à região várias emissoras de televisão de nível nacional e internacional, alertando para a situação. Foram mais de 16 programas a nível nacional e internacional.

O grande poeta, escritor, gênio e músico Elomar Figueira de Melo já alertava, através de suas crônicas musicais, o que estava acontecendo no Sertão-de-Dentro, como ele denomina os Gerais, mas os políticos do litoral nunca se atinaram.

Outra coisa importante a salientar é que as cidades e dezenas de povoados ao longo do Corrente foram o berço de pessoas de expressão internacional, intelectualmente falando, como o escritor Ozório Alves de Castro, que inspirou Guimarães Rosa; como o escritor, educador e cientista político Clodomir de Morais, o único brasileiro a desfilar em carro aberto com Yuri Gagarin, além de criar várias Universidades mundo afora; como Mestre Guarany, criador das imortais carrancas do São Francisco; como Raimundo Sales de Correntina, exímio inventor.

Essas pessoas, só para citar algumas, aprenderam observando os rios que passavam. Por isso o rio, para essa imensa população, é muito mais sagrado que se imagina. E a manifestação e a revolta do povo de Correntina, acontecida recentemente nas fazendas do rio Arrojado, já estava escrita nas estrelas, como nos canta Tetê Espindola.

E, se providências não forem tomadas no sentido de devolverem à população o pouco que lhes resta de mais sagrado, outras manifestações semelhantes acontecerão nas regiões do Cerrado, pois todos nós padecemos do mesmo mal.

Outra coisa a frisar não é a falta de chuvas que provoca tal situação, e sim o rebaixamento dos aquíferos. Além do que, as águas das chuvas que precipitam encontram o solo desprotegido, o que faz com que o escoamento seja mais rápido e o transporte de sedimentos aumente de forma desproporcional, avolumando-se o assoreamento.

É o início do fim...
Para finalizar, muitos me perguntam: o que tem que ser feito agora?

Para responder esta questão eu teria que enumerar vários pontos, o que tomaria muito espaço e não é este o caso no momento. Mas construir um caminho para fortalecer ou implantar uma educação criativa e a pesquisa que leve em consideração as vocações regionais pode ser a agulha da bússola. O prejuízo já ocorrido, este é irreversível, dentro dos parâmetros de conhecimento que atualmente possuímos.



sábado, 10 de março de 2018

A PONTE DOS GOROTIRE E A ÁRVORE DA VIDA



Altair Sales Barbosa

Este artigo, refere-se a um texto escrito dentro dos padrões do conhecimento cognitivo ético, construído basicamente pelo que se denomina “ciência ocidental”.  É um guia de leitura, através do qual o leitor toma o rumo de uma ponte suspensa para tentar entender ou vislumbrar o que existe do outro lado da ponte. Pode ser que não exista nada, mas pode ser que outras tantas pontes possam existir e com isto conduzir o leitor para outras realidades e transformá-lo num andarilho que busca conhecer sempre mais.

Nesta constante busca o andarilho pode ou não se deparar com duas realidades cujas interpretações e interação podem muito bem alargar sua visão e daí muitas outras pontes suspensas, trilhas ou caminhos podem se descortinarem à sua frente. Essas duas interpretações mencionadas podem ser denominadas de “êmica e ética”.

A interpretação êmica reflete categorias cognitivas compartilhadas pelos povos ditos tradicionais, moradores antigos de certos territórios e portando conhecedores profundo desses ecossistemas.
A interpretação ética é a interpretação que segue regras metodológicas com propósitos analíticos. Isto não descarta da interpretação êmica a utilização de regras rígidas.

A interpretação de realidades diferentes, não é uma tarefa fácil, requer como pré-requisito que situações diferenciadas possam ser compartilhadas.

A PONTE QUE LINNEU ATRAVESSOU

Com a grande diversificação da vida representada por milhões de espécies vivas e por uma quantidade grandiosa de fosseis que representam espécies extintas, tornou-se necessário a criação de processos metodológicos, que fossem capazes de dar um mínimo de organização a esses seres e procurar estabelecer suas relações. A este processo dá-se o nome de classificação. A classificação tem quase o poder mágico de organizar o caos exterior e colocá-lo numa espécie de caminho condutor.

Algumas comunidades humanas de modo geral, sempre procuraram fazer este tipo de exercício atribuindo às plantas e animais, nomes que de uma forma ou de outra destacam alguma característica desses seres. Como por exemplo: sete-dores, tipo de planta que cura vários males; sofre-do-rim-quem-quer, planta que cura males renais; cachorro-do-mato-vinagre, animal parecido com cachorro e que tem a cor vinagre, porco-do-mato queixada, etc. E assim sucessivamente. O problema maior dessas classificações sem critérios bem definidos é que constantemente suas denominações mudam de acordo com os lugares. No caso do porco-do-mato queixada, hoje sabe-se que ele nada tem a ver com os porcos domésticos e estão bem mais próximos dos hipopótamos do que destes.

Este problema foi uma preocupação constante dos naturalistas e aparentemente quem primeiro colocou ordem na casa foi o botânico sueco Carolus Linnaeus, conhecido mais pelo nome de Linneus ou simplesmente Linneu. Este naturalista estabeleceu critérios rígidos de agrupamento de seres, que abriram em perspectiva a criação de um sistema classificatório. Dessa forma Linneu criou um sistema que mais tarde ficou conhecido como sistema binominal.

Lineu viveu de 1707 a 1778 e seus trabalhos foram fundamentais para os pesquisadores da época. Ele partiu de um sistema hierárquico, onde categorias maiores englobam muito mais seres. Estas categorias eram divididas em categorias menores até ao nível de espécies e raças. O nome binominal se aplica porque a identificação ocorre com o gênero sempre acompanhado da espécie. Linneu utilizou o latim para nomear seu sistema classificatório, dando desta forma um caráter universal ao mesmo. Quando Linneu publicou seu primeiro livro em 1735 conhecido pelo nome de Sistema Natural, este englobava apenas algumas centenas de espécies, mas quando o livro chegou à decima edição em 1738, já reunia mais de 4.200 espécies de animais e 7.200 espécies de plantas. Posteriormente aos trabalhos de Linneu o biólogo de origem alemã Ernst Hacker (1834-1919) unindo conhecimentos do próprio Linneu e de Charles Darwin, deu um avanço importante na taxonomia criando a ideia de filogenias mais complexas, tendo como base as próprias noções de Darwin baseadas no progresso evolutivo.




Com a evolução da genética evolutiva, era natural que as idéias propostas por Linneu fossem sendo aperfeiçoadas. Isto aconteceu após estudos minuciosos do entomologista alemão Willi Hennig, que viveu entre 1915 e 1976 e na década de 1950 propôs outro sistema classificatório denominado “sistemática filogenética ou cladística.” A cladística trouxe novos horizontes para as classificações biológicas e de certa forma, novas contribuições para descobertas evolutivas e relações entre os seres. Usa como elemento chave o que se denomina clado, que é definido como um grupo de organismos unidos, em algum ponto de sua história evolutiva, por um ancestral comum a todos e inclui a espécie ancestral e todos os seus descendentes.
Um cladograma é uma hierarquia de espécies, ou de grupos maiores de organismos, baseada em sua história evolutiva e desenvolvimento. Analisa tanto as características externas preservadas no registro fóssil, quanto as informações genéticas fornecidas pelos organismos vivos. Usando sofisticadas técnicas de análise, é possível identificar as semelhanças e as diferenças entre as espécies, descobrir a sequência das divergências que deram origem a novas linhas evolutivas e até mesmo estimar há quanto tempo essas divergências ocorreram. Pela classificação das espécies em clados enraizados uns nos outros, os biólogos reconstituem a história da vida com um detalhamento impressionante.


AS VISÕES DE OUTRAS PONTES
As ditas academias deram até então pouca importância aos que muitos denominam as vezes até sem conhecimento de causa e conceitos claros, saberes tradicionais. Entretanto os trabalhos pioneiros derivados da etnologia, como o etnobotanica, a etnobiologia, a etnozoologia, a etnomusicologia, etc, tem de certa forma contribuído para romper esta barreira e procurar caminhar no sentido de uma integração de saberes. Este fato poderia causar uma revolução pedagógica, pois certamente iria utilizar como premissa primordial a interdisciplinaridade, o diálogo, no pleno sentido Paulofreidiano e a atenção para outras realidades e cosmovisões.

Posey (1992) um dos pioneiros nos trabalhos de etnozoologia constata que:
Com a utilização de conceitos indígenas, por outro lado, atalhos ou mesmo revolução na investigação científica podem ocorrer através do apropriado método  científico de geração de teste e hipóteses. Nenhum etnobiólogo defendeu ou defende que o conhecimento tradicional seja aceito prontamente, mas sim que tais afirmações sejam usadas para ajudar pesquisadores na procura de categorias ou relações desconhecidas do conhecimento etc, para propor hipóteses voltadas a testar os conceitos indígenas.

Através desse modo de investigação, novas espécies e subespécies de abelhas foram “descobertas” a partir de especialistas nativos; compostos ativos de interesse foram incluídos em laboratórios como resultado de pesquisas etnofarmacológicas desenvolvidas em  conjunto com pajés; dietas animais foram analisadas com o auxílio de hábeis caçadores, estudos etológicos pioneiros de espécies pouco conhecidas foram desenvolvidas com a ajuda de especialistas indígenas; e complexas relações solo-planta-animal foram descritas partir de agricultores experientes.
As decisões que os cientistas tomam na proposição de hipóteses baseadas no conhecimento indígena revelam a natureza arbitrária desta etapa básica da busca científica uma vez que os pesquisadores frequentemente precisam excluir de suas considerações os elementos  “improváveis” e “inacreditáveis” presentes nos relatos de informantes. Entretanto, o que é “improvável” e “inacreditável” em geral reflete mais a inabilidade dos pesquisadores  em reconhecer a “realidade” indígena do que qualquer critério científico real. A proposição e o teste de hipóteses provê a ponte metodológica e teórica necessária para interligar a pesquisa científica com o conhecimento tradicional.

Certamente a integração com os ditos conhecimentos tradicionais, poderá conduzir a alguma ponte que ilumine a busca para a solução dos problemas ambientais, sociais e humanísticos, que ainda não tivemos a capacidade de resolver.




sábado, 27 de janeiro de 2018

CASSIQUIARE


Jaime Sautchuk


Especial para a Folha de  São Paulo em 15 de outubro 2000.


 Expedição da Universidade de Brasília refaz trajeto do explorador alemão Alexander von Humboldt (1769 - 1859) 200 anos depois e revela que o maior rio da Venezuela é também um dos formadores do Amazonas

O rio Orinoco, que drena 70% do território venezuelano, é um dos dois principais formadores do rio Negro e, portanto, do Amazonas. O canal do Cassiquiare, ligação natural do Orinoco ao Negro, descoberto em 1744, não é um simples canal, como se imaginava, e desempenha papel muito mais relevante na geografia da região. O Cassiquiare é, isso sim, um defluente (contrário de afluente) do Orinoco. Ele se separa do curso principal desse rio para juntar-se ao colombiano Guainía e formar o Negro, próximo da fronteira dos dois países com o Brasil. E corre sempre no mesmo sentido. A constatação é de membros da Expedição Humboldt Amazônia 2000, organizada pela Universidade de Brasília (UnB), após analisarem a geologia e o relevo da região e constatarem a direção do fluxo da água. O grupo é composto por 39 cientistas, que percorrerão até novembro cerca de 7.000 quilômetros de rios amazônicos. "É um caso único no mundo", diz o hidrólogo francês Alain Laraque, autor das medições realizadas no início de setembro. Com equipamentos de ponta, as aferições são as primeiras feitas no Cassiquiare em cem anos. São medidas de temperatura, condutividade elétrica, turbidez, pH, batimetria, velocidade da correnteza e localização por GPS (Sistema de Posicionamento Global). Ao deixar o Orinoco, ele atinge velocidade e profundidade maiores que as do rio principal. Ali, sua largura é de 50 m e sua água é marrom. Depois de percorrer 320 km e receber inúmeros afluentes de água escura, o Cassiquiare vai mudando de cor, e atinge uma largura de 500 m ao encontrar-se com o Guainía, também preto. Ambos são rios de planície, que retiram pouco sedimento de seus leitos. A cor escura de sua água deve-se à decomposição de matéria orgânica da floresta. São verdadeiros xaropes de plantas, com elevada acidez. Daí a escassa presença de peixes nessas águas. Daí, também, a diferença em relação aos rios de montanha, como o próprio Orinoco e, depois, o Solimões. Este vem dos Andes peruanos e forma o Amazonas, ao encontrar-se com o Negro, gerando o famoso "encontro das águas", na altura da cidade de Manaus (AM). A região cortada pelo Cassiquiare é de planície, um enorme vale entre os Andes e o maciço da Guiana, onde estão as serras do Imeri, Parima, Pacaraima e Tumucumaque. É um parque nacional venezuelano, de selva amazônica, habitado principalmente por índios das etnias iecuana e ianomâmi. A floresta, praticamente intocada, ocupa as margens do canal em toda a extensão. Como a maioria dos rios da região, o Cassiquiare é navegável na maior parte do ano por embarcações grandes. No período de menos chuvas na região (dezembro a março), sua profundidade diminui, dificultando a navegação. De qualquer modo, ele quase não é usado como meio de transporte entre Brasil e Venezuela.

Humboldt barrado

O viajante alemão Alexander von Humboldt percorreu a região e transpôs o Cassiquiare em 1800, chegando até a fronteira com o Brasil, já no rio Negro. Ali, foi detido pelas autoridades portuguesas e impedido de entrar no território brasileiro.

A expedição da UnB, 200 anos depois, presta homenagem ao cientista, percorrendo o trajeto que ele fez e o que pretendia fazer. Seus dois coordenadores, o historiador Victor Leonardi e o biólogo Cezar Martins de Sá, ambos da universidade, afirmam que não esperavam resultados tão positivos no que se refere ao verdadeiro papel do canal do Cassiquiare na região.

Na parte venezuelana, a expedição contou com a participação da Universidade Simón Bolívar, uma das principais instituições universitárias da Venezuela. Um grupo de seus pesquisadores acompanhou as medições.

Até l950, o rio Orinoco era navegado apenas até poucos quilômetros acima do Cassiquiare, onde está a vila de La Esmeralda. É uma mistura de aldeia iecuana com missão religiosa católica e base militar. Acima dali, o rio tem muitas corredeiras, o que fazia supor que suas nascentes estivessem bem próximas.

A rigorosa legislação venezuelana sobre a entrada de cientistas estrangeiros limitou pesquisas naquele país.


Foi só em 1951 que uma missão venezuelana localizou a nascente do Orinoco, 350 km acima de La Esmeralda, próximo à fronteira com o Brasil. Ela está a cerca de 200 km a leste do pico da Neblina. Nos dois lados da fronteira, há cerca de 15 anos, ocorreu um surto de garimpo, hoje bastante reduzido. A última povoação não-indígena na entrada do Cassiquiare é uma missão da entidade norte-americana New Tribes. Há muitas aldeias indígenas, inclusive ianomâmis, em toda a extensão do parque. Só depois do seu encontro com o Guainía, formando o rio Negro, é que surgem povoações maiores. As primeiras são as cidades de San Carlos de Rio Negro, do lado venezuelano, e de San Felipe, no colombiano. Menos de cem quilômetros rio abaixo, está o povoado de Cucuí, a primeira localidade brasileira, pertencente ao município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Há uma estrada de terra, com 240 km de extensão, ligando Cucuí à sede do município. Mas o rio continua sendo a principal via de transporte por ali.

De helicóptero

O único trabalho de pesquisa feito pela expedição Humboldt na Venezuela foi este do Cassiquiare. De resto, a missão foi considerada de intercâmbio científico-cultural, devido ao rigor das leis daquele país quanto a pesquisas por estrangeiros. Em algumas áreas de fronteira, a expedição viajou em helicóptero da Força Aérea venezuelana, por causa dos conflitos armados na vizinha Colômbia.

A situação colombiana, aliás, reflete-se em toda a região. O Brasil retomou o Projeto Calha Norte, há anos paralisado, e está ampliando a presença militar em toda a fronteira. Há, nessas ações, sintonia com o Plano Colômbia, iniciado pelo governo dos EUA sob o pretexto de combate ao narcotráfico.

Já em solo brasileiro, a expedição deu início a um grande número de trabalhos científicos, técnicos ou de simples interação com as comunidades ribeirinhas.


A região do alto rio Negro, conhecida como Cabeça do Cachorro, hoje é formada, em sua maior parte, por terras indígenas ou unidades de conservação. Ali mais de 30 mil índios estão organizados em 42 associações, e essas formam a forte Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). 

Em São Gabriel, a Expedição Humboldt concluiu sua primeira etapa no regresso ao Brasil. Seu primeiro trecho começou em Manaus, por terra, em 1º de setembro, entrando na Venezuela por Roraima. Ainda há três etapas até Belém do Pará, onde chegará no dia 4 de novembro. Só então haverá um relatório final de todas as atividades, que será divulgado em livro e vídeo.